quarta-feira, 18 de março de 2009

Pequeno ensaio sobre a incapacidade II

(um passo de cada dia)
Vinha o Rapaz apressado por aquele caminho tortuoso, junto à noite coberta de nuvens escuras, largando um pingo em seu ombro, lhe prenunciando água... logo a frente uma Moça que parecia bonita, andava rápido temendo quem sabe aqueles que furtam ou machucam... Assustada olhou pra trás e num relance bateu o olhar direto com o do Rapaz... logo após essa troca parece a chuva ter achado a concessão para avançar ao chão, fazendo assim os passos corridos de ambos se alinharem, de modo que quem observasse de longe entendesse que ali estavam uns conhecidos conversando... enquanto que pra eles aquele caminhar beirava o constrangimento, sendo destoado graças a insuportável vontade do rapaz acabar com aquela sensação... “melhor corremos para o ponto..” foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu, pois não o melhor, mas não também havia nada de tão mais sublime a falar naquela situação... a moça sorridente respondeu, “e olha que eu sai de casa hoje pensando em trazer minha sombrinha”, eles riram e correram, enquanto ele constatava “sim, é linda...”, logo ali na frente havia uma pequena acolhida para proteger-se, e parados fugindo outra vez de encarar-se frontalmente faziam justamente isso acontecer, claro, querendo sem querer... vieram assim palavras bobas e lépidas sobre o tempo... perceberam o leve suor que saia do pescoço contrastando com a água fria do céu... logo se endireitou um diálogo mais cômodo pros dois... a chuva como veio se foi, e ela disse “pô, aí só pra fazer a gente correr né...”, e ele pensou “só pra fazer a gente se conhecer... talvez...”, em vez disso ele com uma cautela de seres urbanos preocupados com a volta ao lar questionou “seu ponto é o de lá?”, balançou a cabeça que sim, a Moça, e sem mais esperar tanto os pingos cessarem mais um pouco disse ele “a o meu é o de cá, boa sorte”, “valeu”, a Moça sorriu falando... o trepido passo logo lhe fez perceber que havia deixado uma moça sorridente e bonita sozinha... o voltar pareceu-lhe mais ridículo e seguiu tirando da mochila uma casaco mais apropriada ao tempo... Olhando pra trás, e claro, arrependido... “merda, o que fiz?”... chegou ao tal ponto esperar o transporte público habitual... viu logo depois a moça chegar ao seu do outro lado mais a frente... Sentiu-se bobo, envergonhado, mas acabou quase que num espasmo, sorrindo pra si... surgiu em sua cabeça a maior das obviedades, “estou vivo”... pensou como foi bom correr na chuva com uma moça que não conhecia... haveria a Moça romantizado da mesma forma?! Havia chance quem sabe em outra noite reconhecê-la?! Era afinal um idiota?! Não sabia, e isso é que lhe vez de novo sorrir pra si.


Eu digo de outra maneira aquilo que a minha avó disse, já devia estar farta de viver e disse: ‘O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer’. Ela não tinha pena de morrer, ela tinha pena de já não estar no futuro, para continuar a ver esse mundo que ela achava bonito.Saramago

Um comentário:

MeNina disse...

Hahahahah, gostei mto desse texto de Saramago. Me fez lembrar certo dia na aula de filosofia, lá naquela época do ano passado em que estava ocorrendo a aceleração de partículas. Nesse dia meu professor disse que até gostaria que desse alguma banana lá no experimento, pq ele veria o mundo acabar. Achei estranho ele falar isso, pois nunca foi pessimista nem algo do tipo. Aí depois ele justificou dizendo que uma das coisas que mais o incomoda é o fato de ter que morrer sabendo que não vai poder ver o futuro. Então eu disse que não queria deixar o mundo aqui: eu queria ver o mundo acabar e então acabar junto.