sábado, 26 de dezembro de 2009

saber quem eu sou LÁ

up (pixar)

"quero encontrar a ilha desconhecida,
quero saber quem sou eu quando nela estiver,
(...) Se não sais de ti, não chegas a saber
quem és"

O conto da Ilha desconhecida, José Saramago (Pag.40)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Sobre um longínquo e afetuoso gesto

"O mundo inteiro é um saco de merda se rasgando. Não posso salvá-lo." *

Foi ali que desistiu... Pluft!
Engasgada em pensamentos perdeu simplesmente toda a crença na humanidade enquanto olhava a rua pela janela do ônibus, meditando sobre a pessoa que durante um bom tempo havia sido a sua preferida. A cidade contorcida pela velocidade parecia cenário perfeito para análise daquelas fúnebres conclusões. Uma mosca se debatia no vidro da janela e parecia ter a síntese perfeita do que ela ali acreditava ser nossa penosa condição - "Nos debateremos sempre na tentativa de voar". Se há, mesmo nas pessoas que mais nos dedicamos e acreditamos, um ímpeto de enganar, omitir, simular, o que seria então daquele resto de gente que passa como cenário borrado na janela do ônibus, que nunca conheceremos, que nunca doaremos um gesto?!
Desdenhando de si, lembrou do quanto acreditava que em cada um havia possibilidade de conceder ao mundo uma beleza, mínima, mas intensa, capaz de direcionar tudo pra um bem maior. Não eram nas grandes revoluções que ela acreditava, mas nessas raras almas que pareciam impedir que enxergássemos a cólera desmedida, que mesmo em qualquer esquina, o mundo é sempre capaz de propagar. Seria só nas pessoas que nos encantavam e apeteciam, que essa responsabilidade tão nobre seria possível. Por aí então estaríamos interferindo em todo o resto (naqueles borrados rostos que nunca conheceremos), partilhando de um longínquo e afetuoso gesto. Era nesse trabalho humanitário que ela acreditava até então. Antes daquilo...
O suor frio que aflorava de sua testa parecia expulsar ali todo o romantismo manco que tanto adorou se enganar. Foi Bukowski* que lhe veio como força teórica pra legitimar e suavizar seu choque.
Ali, naquele instante evasivo, era apenas na plena descrença que queria se apegar, rindo das irônicas forças que regem a natureza humana, de sua capacidade de auto-sabotagem. Lembrou que certa vez observava um velho observar as crianças num parque, onde delirante soluçava baixinho: "é a continuidade trágica... um dia serão monstros como nós". Se antes velho delirante, agora, ali, o velho era um gênio, niilista sim, porém profeticamente corajoso.
Certificava-se de um medo antigo, de que cada um, mais cedo ou mais tarde, haveria de encontrar sua própria forma de atrapalhar/destruir o outro, e o resto continuaria ainda mais comprometido. Assim, entre tantos conflitos e certezas, minha imagem continuava piscando em seu córtex cerebral. Acusado, culpado e condenado por ter lhe roubado aquela idílica relação com o mundo, visão essa que tanto desqualifiquei, mas que cá entre minhas contradições invejava tanto.
Gostaria de mudar tudo aquilo, gostaria de entrar naquele ônibus e fazê-la rir como antes, como quando meu abraço tinha um peso confortável, capaz de dilatar longamente o tempo e o espaço pra uma zona só nossa. Gostaria de ser todos, tudo que ela olhava, cada rosto, cada desconhecido, para imprimir neles, disfarçadamente, um lado que ela gostava tanto de se alimentar, para que assim resgatando sua utopia, pudesse fazer esquecer cada equívoco e falta de cuidado que tive.
Como aquele mosca que ela observa no vidro do ônibus, me deparo com uma histérica paralisia, culpa e arrependimento por ter tirado de quem mais gosto a capacidade que tanto me falta, e a todo resto, de realmente vislumbrar possibilidades mútuas, mais do que apenas esperar que o saco de merda se rasgue sobre tudo.



Lugares-de-coisas-fartas (Pág. 98)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

reinaugurando memórias

esqueci tudo... e por alguns instântes me pareceu o maior dos prazeres. sem pena, esquecer... deixei essa ilusão se apoderar de cada canto, pêlo e contorno de mim. de cada coisa que eu olhava uma impressão explosiva de renascença me encobria, como se tudo acabasse de surgir. toquei cuidadosamente cada objeto, cada folha, busquei o chão, pisei firme, alisei suas frestas. busquei o rosto, havia ele cá o mesmo, encaixado com as mesmas pretuberâncias e buracos, mas que parecia naquele momento a superfície mais virgem, se lavando no vento quente do ventilador... era o meu lugar mais antigo, mas o quarto havia se convertido em novos aromas, poeiras, que eram ali a própria pele das novidades. deitei piscante e captando algumas cores. o verde. verde era a capa do caderno, puxei, abri sob meu colo. revelou-se tudo outra vez. voltei... voltei pra última página do livro que acabara de acabar. Mãos de cavalo, de Daniel Galera. a repentina ausência de si parecia necessária naquela noite de agosto. era preciso responder ao que foi lido mais do que com pensamentos e impressões, era preciso tornar físico o ato de esquecer. cessar as próprias memórias por algumas dezenas de segundos, deixando depois que todas elas, desordenadas, livres, se misturassem agoniadas.
(todos os primos descendo de bicicleta desesperadamente a mítica ladeira de Dega, talvez atrás de uma cicatriz, buscando do mundo alguma agressão; minha avó falante contando histórias na mesa do café, enquanto eu tentava imaginar cada cena; o momento exato do batismo no ginásio com o apelido que me perseguiu por tempos).
meses depois assisti Morro do céu, documentário de Gustavo Spolidoro.
a reação pós-filme foi contrária a do livro: andar e conversar com meu irmão na rua. mesmo num processo diferente, aconteceu a mesma sensação de revisita das próprias memórias através de outras. lembrei do livro, de como me senti depois, de como não havia escrito nada além de umas poesias toscas à respeito.
são ambas obras simples, sem maiores rebuscamentos ou revoluções narrativas, mas com uma imensa capacidade de comunicar, de atravessar as barreiras que tanto buscamos na arte. Spolidoro e Galera parecem ter em seus personagens uma forma de guardar e rememorar suas próprias infâncias e adolescências... contando outras histórias, acabam contando as suas próprias. e eu cá. assim personagens, autores e leitores, todos acabam unidos em uma enorme memória coletiva, pulsante, capaz. às vezes acho que todo artista só responde as suas influências e ao seu próprio passado quando inventa algo. poderia citar ainda O espelho, de Tarkovsky
ou ainda Infância, de Graciliano Ramos, ou tantas obras que se baseiam nesse exercício de recordar pra recriar... no entanto Mãos de cavalo e Morro do céu parecem mais próximos de minhas limitações e pretensões em lidar com palavras e imagens. enxergo os autores mais como amigos, do que como mestres.
a simulação de uma amnésia redentora foi provocada ironicamente desse medo
em esquecer determinados momentos e detalhes, como se pudesse controlar a intrincada teia do esquecer/lembrar. como se houvesse chance de reinaugurar a atenção e a importância dos momentos mais simples que formam hoje outros mais importantes. parafraseando Borges (aquele mesmo J.L.) devemos fazer da vida, da literatura e do cinema espaços essencialmente alimentados pelos sonhos, que por excelência são os melhores arquivos e misturadores das recordações.

me restou deitar piscante, dormi e sonhei em preto e branco com um menino banguelo perguntando: "quanto custa essa camêra de filmar sonho?"

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Traz o demônio no corpo

(Por favor ler em voz alta e no escuro!)

afundando os pés entre as folhas secas
nosso irmão calava sua revolta
nosso irmão virava-se de costas

abrindo largos passos para um mundo de vícios velhos,
nosso irmão se perde como um confuso, um epiléptico... possesso!

e a sua virulência separa as mãos
sua virulência invade o nosso pão

nosso irmão traz o demônio no corpo

e a sua virulência separa o nosso pão
e sua virulência invade nossas mãos

impiedosamente
nosso irmão traz o demônio no corpo,
irmão,
traz o demônio no corpo, traz...

(Só assim Raduan poderá nos ouvir!)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

"cinema ta ficando um assunto sério demais..."

O ponto de partida de nossos filmes deve ser a instabilidade do cinema – como também da nossa sociedade, da nossa estética, dos nossos amores e do nosso sono. Por isso, a câmara é indecisa; o som fugidio; os personagens medrosos. Nesse País tudo é possível e por isso o filme pode explodir a qualquer momento.
Rogério Sganzerla (1968)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Um elogio a subversão - Casamento silencioso

Há uma série de filmes que buscam denunciar as variadas formas de repressão que governos antidemocráticos imporam contra as sociedades, principalmente durante o século XX. A maioria desses filmes acabaram fazendo uso do gênero dramático, numa clara tentativa de se aproximar de uma realidade histórica. Em Casamento Silencioso, filme de estréia do diretor Horatiu Malaele, a idéia é seguir justamente pelo caminho inverso: uma comédia que se ergue em situações aparentemente absurdas e desconcertantes, sem perder o nível crítico de sua narrativa. No filme uma pequena comunidade no interior da Romênia acaba impedida de comemorar o casamento de um simpático casal de moradores, justamente pelo luto imposto pela morte do então ditador da União Soviética, Josef Stalin. É anunciado pelo oficial comunista no dia da cerimônia que por sete dias está proibida qualquer manifestação pública, seja risadas, casamentos ou funerais. Haveria situação mais absurda? É o que as cenas seguintes irão responder.
O filme acaba dividido principalmente através de uma lógica sonora contrastante. Enquanto o barulho domina boa parte do filme através da música, do sexo, das brigas e risadas exageradas, o silêncio (quase) impera na comemoração do casamento, que acontece às escondidas das autoridades. É nessa cena que o filme consegue catalisar mais intensamente a sua força criativa, fazendo referência direta a arte circense e as chamadas comédias-pastelão. Se há no barulho a extrapolação da liberdade e das sensações, haverá no silêncio a capacidade de subversão e revolta contra a censura imposta pelo estado. Através desse excêntrico caso o filme acaba simbolizando toda uma época onde o comunismo foi estabelecido através do autoritário controle sociocultural, tema que tem dominado o recente e premiado cinema romeno, tendo como exemplos mais expressivos a também excelente comédia A leste de Bucareste, e o denso drama 4 meses, 3 semanas e 2 dias. Em Casamento Silencioso não faltam sátiras a esse comunismo vulgarizado, como no momento da tentativa de “culturalizar o povo” através do cinema, mesmo num vilarejo sem energia elétrica, ou no modo como partido é caricaturado. Tendo o início e o final do filme se passando no presente o diretor demonstra tentativa de problematizar essa história recente, refletindo sobre o modo que a contemporaneidade lida com suas memórias.
A hilariante fabulação da realidade que o filme propõe parece querer nos indicar que há possibilidade da felicidade sobrepor-se a ignorância megalomaníaca dos homens, mesmo que conquistada sutilmente através do olhar infantil e na ilimitada vontade de reinventar que a arte cinematográfica nos concede.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sinal fechado

Mesmo que nunca percebêssemos as cenas da Baía ao entardecer, mesmo que todas as cenas seguissem até o último momento, que era a imagem da baía a partir duma janela, Isa observaria a rua; E mesmo que o som do trânsito aumentasse de intensidade, ouviríamos os passos, antes que ela soubesse que o mundo terminaria diante daquele silêncio. Mesmo que o mundo terminasse por aquela tarde esquecida, Isa continuaria a mesma doutras vezes. Quer fosse por esse silêncio duradouro, ninguém saberia que a cidade seguia em tom de azul desbotado: ninguém saberia daquele azul. Por mais que quiséssemos, nunca saberíamos de Isa nem desse dia. E assim, como em tantas vezes, poderíamos ter dito que tudo era somente aquele entardecer. Pela avenida, o semáforo se perdia novamente pelo vermelho. E antes que todos soubessem daquele dia, dos carros bem como do sinal, poderíamos ter dito que a cidade terminaria pelo silêncio afundado de mais um entardecer. Sim, Poderíamos ter dito. Entretanto, não havia nada a ser dito além dos passos apressados das crianças pela praça. Não sem antes a perdermos de vista: já não ouvíamos as buzinas dos carros. Por mais que tudo nos silenciasse, as imagens da Baía correriam como num filme, sem que distinguíssemos qualquer um dos personagens: a janela, as fotos, o espelho e as imagens dos amantes em mais um fim de tarde. Mesmo que a cidade nunca silenciasse, nunca nos esqueceríamos daquela última imagem. Então, novamente, veríamos as fotos pela parede da sala, a imagem de Isa diante do espelho e as imagens dos amantes pela cama. Mesmo que nunca a amássemos, ainda assim, haveria aquela última imagem: os resquícios de mais um dia terminado. Então, por um instante, poderia nunca ter existido nenhuma imagem, nem o corpo de Isa coberto de um negrume parco, como numa tela de cinema escurecida, a espera de que tudo novamente terminasse.

por:
Francisco Gabriel Rego

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

pedaço de solidão

Café. Foi o maldito café que me levou ao BomPreço naquela noite... Aliás, pior, açúcar. Precisava de açúcar (assassino!) no meu café com leite em pó. Já passava das uma da madrugada quando adentrei naqueles corredores cheirando a detergente, ecoando a FMica voz de Paula Toller. Um supermercado 24hrs nesse horário é quase um universo paralelo, super iluminado e suspenso no vazio medonho das ruas de cachorros e mendigos perdidos. Salvador fede mais nesse horário, quando todos os corpos deixam de se envolver, colidir... Mas eu não quero falar das esquinas fétidas da cidade. Quero falar de solidão, e um pedaço dela me esperava atrás do caixa. O nome dela era Márcia (assim quis batizá-la )... Lixava suas unhas quando encostei com minha singela cesta vermelha, Boa Noite. Sem resposta Márcia arrastou aqueles pacotes automaticamente, com olhos petrificados de um zumbi inofensivo. Ela não respondeu, apenas perguntou sobre o meu inexistente bomclube. Brinquei sobre isso, sobre eu nunca ter tido esse tal bomclube. Ela sorriu brevemente percebendo como subverti o diálogo que normalmente se instaura entre os zumbis (consumidor/caixa). Levemente levantou a sobrancelha esquerda e puxou assunto. Logo falou sobre como não gostava daquele tempo chuvoso, do número de baratas que circulava por ali, do medo de esquecer certas coisas, da saudade dos pais no interior, sobre morar sozinha... Sobre como preferia ficar no trabalho a estar em casa. Como assim?, pensei. Olhei ao redor, no fundo só estava Ruan (assim quis batizá-lo) limpando o chão e cantarolando as canções da rádio. Márcia se sentia mais acolhida ali, no mundo das embalagens coloridas, números, trocos e bips, da limpeza de Ruan... Sua casa era mais vazia que aquilo.
Pontuava a conversa com algumas piadas banais, mantendo a gentileza de deixar ela falar, achando nobre aquele ato... Ouvir alguém que não conheço no fundo carrega uma certa estranheza. Captei mais melancolia, necessidade de se fazer existir em meio ao nada, enquanto que o que as palavras contavam ficava em segundo plano. Uns vinte minutos depois deixei Márcia atendendo uma galera que comprava às gargalhadas vinhos e latinhas de cerveja. Ouvi um Boa Noite de Márcia pra essa galera.
Sorri. Enquanto olhava minha sacola amarelada na escada percebi que havia esquecido o bendito açúcar (assassino). Lamentei, deixei pra lá. Atravessei a rua, lamentei o cheiro. Abri a porta e ninguém em casa tornou o texto de Márcia ainda mais latente. As palavras passaram prum primeiro plano, e o café amargo me deixou ainda mais existencialista. Sentei no sofá pensando em todas as possibilidades de solidão mais distantes - Tragadas de cigarro na janela por uma mulher recém separada/ O olhar congelado do garçom num espelho de um bar/ O latido pro nada de um cachorro num quintal/ Uma xícara de café amarga e fria em minha mão. - Parece que as pessoas temem o ''Só'' por essa condição lembrar das dívidas próprias mais urgentes, do que deixou de ser feito, resolvido realmente.
A gente passa vida conhecendo gente, conversando, tentando dar sentido a tudo, mas são poucos os que realmente ouvem. É difícil calar. Poucos os que reconhecem uma cor, um cheiro, um silêncio e que ainda tem a sorte de experimentar na própria solidão algum sabor... Existindo insistentemente, pleno em meio ao nada.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

lugares-de-coisas-fartas

O Limite me arrastou pela rua, amarrou minhas mãos em um poste... abri lentamente os olhos e enxerguei luzes piscantes de um velho prostíbulo... de repetente me vi cercado por putas suadas que me mostravam a língua, os seios, e perfumadas cantavam alto meu nome... sorri... O Limite voltou dançante de palitó azul, se aproximou e mostrou sua camisa com uma frase... O HUMOR ODEIA VOCÊ... gritei de raiva, cuspi, xinguei... névoas me levaram pra uma sala cheia de EU's, todos concentrados no EU professor... explicava, desenhava gráficos, esquematizando no quadro todos os elementos sombrios da minha personalidade... traumas, defeitos, enfermidades... levantei, todos me miraram, enquanto desesperado buscava uma saída que não havia... aliás, num canto uma janela... corri, mas nunca alcançava, puxei as cadeiras, agora vazias, mas a janela continuava distante... me agachei, me abracei entre suspiros... entrei num denso escuro... abri lentamente os olhos e enxerguei o modo como o vidro temperado da janela refletia o sol dentro do meu quarto... fui a cozinha com a sensação de que alguma merda me esperava... tudo no lugar... voltei pro quarto, tentei rastrear restos daquele sonho absurdo... lembrei das putas e me masturbei até o sol iluminar de outra maneira o quarto... o ato besta me unia novamente a barbárie comum da realidade dos homens que acordam todos os dias sem sonhar com nada, nada...

lugares-de-coisas-fartas - Pág. 02

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Lucrécia B. Karamazov

II Concurso Estadual de Crítica Cinematográfica Walter da Silveira
http://www.dimas.ba.gov.br/critica2009/lista_de_premiados.htm

E num é que as vezes esse negócio de cinema da mesmo certo?! Que bom... (Click e leia as críticas completas!)

Sobre imobilidade e movimento em Linha de passe

"A catarse do filme cresce e suavemente explode em um final aberto e altamente lírico... A probabilidade do gol é a própria probabilidade da vida que de tão estanque e injusta faz Dinho repetir 'Anda, anda', como se fosse ordem, vontade maior pelo movimento a todos os outros personagens: a mulher da cadeira de rodas, a mãe ofegante sobre a cama... E por que não do nosso cinema. Cada irmão, anulados nas multidões vomitadas pela cidade, descobre seu meio de impor a visibilidade que tanto precisam. “Você tá me vendo?!”, grita Denis com o motorista ao tirar capacete, enquanto Reginaldo passeia calmo com o ônibus entre os viadutos, rindo de sua proeza."

A desconstrução final de Memórias do Subdesenvolvimento

"A complexidade da personalidade de Sergio segue o caminho inevitável da desconstrução, como Nietzsche, ao propor uma filosofia feita à marteladas. Em meio a essa demolição, Alea acaba por expor a maior contradição do personagem: a chave da sua incompatibilidade está justamente em seu nível de lucidez e consciência. Nem revolucionário, nem burguês, ele é um quase intelectual que não consegue definir seu papel e atuação."


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Um cinema mais que cinema - O ANTICRISTO

"O artista existe porque o mundo não é perfeito" - Tarkovsky

Num determinado momento de O ANTICRISTO os pensamentos se perdem, as idéias e interpretações viram alpiste, a capacidade de definição não faz sentido… Somos tomados de forma tão pungente pelas imagens que a poltrona parece se contorcer junto com o corpo. Lars Von Trier parece ter tanto a mostrar que não deixa muito espaço durante o filme pra nossas próprias reflexões, ou pelo menos pra sua organização. As imagens por si só parecem silenciar o texto. A plasticidade suavizante das primeiras cenas já nos apresenta um universo regido pela crença absoluta na imagem. A ópera de Händel, o preto e o branco, a hiper-lentidão da penetração, da colisão entre os corpos, da queda da criança, guardam uma beleza trágica e perversa que não nos poupará do choque... E não há outro meio pra chegar ao que o diretor /autor quer nos dizer, pra tentar entendê-lo há de se ter muita responsabilidade e espírito livre.
A impressa cinematográfica gasta centenas linhas pra falar da polêmica estréia do filme no Festival de Cannes, sobre a depressão do diretor, das chocantes cenas, etc. Na análise de qualquer filme de Lars Von Trier todas essas reverberações devem ser levadas em conta, o problema é quando essas acabam sendo mais discutidas que o próprio filme. Claro, a polêmica toda sempre vende mais, e ele próprio tem parte de culpa nisso. Acho que é dessa superficialidade, e da impressionante necessidade de discutir e mastigar cada cena, que meus dedos coçaram compulsivamente pra escrever. Saí da sessão embasbacado, desnorteado, torcendo e esperando os pensamentos educadamente se recomporem.
O Anticristo é o mais pretensioso de seus filmes. O diretor parece querer fazer do seu cinema mais que cinema, mas também cura de suas próprias dores e questionamentos. Será que o artísta precisa experimentar de uma dor incalculável pra depois expulsá-la com Arte?! Muitos exemplos provam que sim, e Lars nos mostra seus próprios pesadelos na tentativa de descortinar as dores e culpa de toda humanidade. Esquizofrênica tentativa! (O que seria de nós sem elas?!)
Sua tese aqui é sobre a existência, sobre a representação que fizemos do Bem e do Mal pra julgar e edificar nosso mundo. Ondas do destino, Dançando no escuro, Dogville já contemplavam com a mesma visceralidade esses aspectos, mas o exorcismo do diretor aqui parece ainda mais desesperado e urgente. Pra isso ele se apropria e subverte o próprio emperrado gênero de Terror (o título já é uma clássica referência do estilo, que claro guarda significados muito maiores).
A densidade sufocante do filme potencializa o maior dos enfrentamentos: Ela e Ele no Éden pra um histórico e doloroso acerto de contas! Se a Bíblia nos conta a historinha da criação do mundo, Von Trier irá desconstruí-la pra provar o quanto somos contra a idéia de perfeição... O Homem é incompatível com a Natureza justamente por não aceitar seu grandioso poder. Tudo diferente do Cristo foi demonizado e subjugado: o corpo, a mulher, a natureza, os índios... E por aí vai, uma longa lista de cristianizados na base do fogo. O Cristo que é homem que é a civilização contra a Natureza que é Mulher, e por isso Igreja do Demônio. O "caos'' dessa Natureza é tudo de que o homem sempre buscou fugir, desorganizando o orgânico pra estruturar a ilusão de um mundo superior, ''limpo''... Mas a raposa avisa que "o caos reina'', porque a Natureza é maior, e é aí que está todo nosso desespero. Sufocar, queimar, estuprar, escravizar não poderá conter sua impiedosa resposta final.
Se o sexo é o único elo entre esses mundos, e da procriação trágica da humanidade, ELA abortará tais possibilidades ejaculando sangue, cortando o clitóris, permitindo a queda do filho. Ela é a catalisação de Grace, Bess, Selma dos outros filmes de Von Trier, o que faz da melhor parte da sua filmografia um só grito. E desse agudo som todas essas Evas lentamente virão morro acima nos colocar junto da mesma absurda e desordenada fogueira, que de tão alta pode atingir a essência daquilo que misteriosamente somos feitos, mas que nunca realmente queremos enxergar.

Em O Anticristo Nietzsche diz: "É um doloroso, um arrepiante espetáculo que despontou para mim: abri a cortina da corrupção do homem." E ainda... "É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela". Interessante coincidência? Nada parece gratuito nesse filme. Assim como a justíssima dedicatória final ao mestre Tarkovsky. Através dessas referências podemos imaginar a abrangência simbólica e física dessa obra, que continuará maldita, Antiparalisia, Antidepressiva, amaldiçoada pela capacidade de perturbar nosso letárgico sono, elevando nossa natureza para muito além dessa covardia que nos ensinaram por tanto tempo.


ps: todas as divagações e delírios desse humilde texto são de inteira responsabilidade da chuva torrencial que cai aqui fora, mas que invadiu também minhas reflexões... A natureza é mesmo demoníaca!

por: ramon m. coutinho

domingo, 27 de setembro de 2009

os tentações

Há algo nesses caras que ajudam a entender minha personalidade...




(Talvez porque eu gostaria de ser um deles!!)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Que sim! Que não!

Peço um pedaço da luz
que alumie o cansaço escondido.
Peço um pedaço de som
que emagreça o verbo.

Quero uma queda surda
que pareça piada.
Quero uma queda sem dor
que não suje a calça.

Que sim! Que não!
Aguento mais que
tu dou nada.

Que sim! Que não!
Pertenço a lugar
algum. É nada?!

por: leo

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

rascunho...

(por favor clique para ampliar!)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

trecho 1h45'

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

"
O jogo da Amarelinha" - Capítulo 7
Julio Cortázar

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

contemplando 999


Achei graça quando Gigito disse: "Hoje é uma data de Deus!", não só pelo antagonismo ao místico e diabólico 666, mas também pela importância que as vezes damos aos números... Mesmo tão objetivos, frios, aleatórios, eles surtem efeitos tão subjetivos e viajantes.
Lembro da época que usava relógio de pulso e por inúmeras vezes ao consulta-lo flagrava uma sequência alinhada (tipo 15h 15'15''), e sempre achava que algo de insólito poderia acontecer no momento daquelas repetições.
(Uma mulher na fila do banco abre um envelope, descobre que está grávida e me abraça feliz enquanto pensa o que fará pra criar a criança, se ficará feia grávida, que nome dará, quem é aquele que ela abraça.)
Parece besta, mas era bom fantasiar sobre as várias possibilidades nessas frestas de tempo. Hoje atravessando a rua debaixo de chuva pensava nesses 9's, em seus significados. A cidade estava realmente estranha. Além da chuva repentina, ao virar a esquina da minha rua me deparei com a completa ausência de luz na hora do jogo da Seleção em Pituaçú, enquanto que em outros bairros ônibus eram queimados e módulos policiais metralhados... O futebol, a violência, o escuro, meu cabelo molhado: tudo era Salvador, tudo era nove de Setembro de dois mil e nove. Tudo era tanta coisa em um número... A vontade era de sumir um pouco! E de uma conversa no busú com uma amiga lembrei de Bauci, uma das cidades invisíveis de Calvino, que se sustentava acima das nuvens e que raramente se via seus habitantes em terra.
"Há três hipóteses a respeito dos habitantes de Bauci: que odeiam a terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contato; que a amam da forma que era antes de existirem e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de examiná-la, folha por folha, pedra por pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a própria ausência."
(As Cidades Invisíveis - Pág. 73)

4 Brasil, 2 Chile. A polícia prendeu 14 pessoas, viva!
É mesmo aliviante contemplar a própria ausência...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

um filme sobre Você

O fragmento, a memória, o incompleto.
"Moscou"
é feito disso... ou foi disso que eu o fiz. Um filme que não consigo parar de pensar e re-fazer. A expectativa que antecede um filme de Eduardo Coutinho me leva sempre a impulsionar seus significados. Entre o que eu esperava e o que realmente É, sempre surge algo novo. Novo que aqui precisa de um "N", assim mesmo. Se nos filmes anteriores tal descoberta era feita em uma confortável zona de análise do discurso/narração do outro, "Moscou" parece não ter nenhuma fresta de contato simples ou direto que ajude a descortinar suas imagens e palavras. Esse impedimento não é inconsequente ou gratuito, mas necessário. No texto denso de Tchekov, "As três irmãs", Moscou (a cidade) é a lembrança e o desejo inalcançável. Em cena a atuação dos atores/personagens (Grupo Galpão) é mesclada as memórias pessoais através de fotografias e depoimentos. Coutinho radicaliza seu discurso narrativo sem direcionar seu olhar unicamente sobre o processo de criação (como eu pensava que fosse) ou sobre o já exaustivo debate ficção e documentário. Experimentamos a sensação de incapacidade, da ausência que impregnam a história... Dessa sensação virão nossas constatações. Ausências e impossibilidades. Atingimos o que há de real em nós mesmos, por isso esse documentário acaba sendo sobre cada um que o assiste... Não há maior originalidade.
Entre o que esperava e o que o filme foi, estava eu, só (literalmente) em uma sala escura com a(s) minha(s) Moscou... foi doloroso, inesquecível.

Tchecov não tem nenhuma culpa do que eu fiz. Aliás, eu ainda nem sei porque fiz este filme.” - Coutinho

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

(re)lendo "O Leitor"

(Vi "O Leitor" logo na época da sua estréia, no início do ano... Minha tentativa de escrever algo sobre ele naufragou quando percebi que as frases pareciam ter o mesmo sabor do filme: insosso. Minha dificuldade em escrever sobre algo que não gosto (ou que gosto mais ou menos) é salva as vezes por uma revisão mais calma do objeto em questão. Terminei esse pequeno texto/ crítica só pra provar pra mim mesmo que podia escrever algo sobre essas coisas não muito boas, afinal elas acabam sendo importantes justamente por tomar uma considerável parte do nosso cotidiano.)

Sobre o "quase" - Desejo, culpa e redenção em "O Leitor"
A antiga relação cinema/literatura sempre favoreceu um amplo debate sobre a construção do imaginário cultural, através dos seus diversos pontos de confluência e divergência. Questionamos e refletimos ainda mais sobre tal parceria ao nos depararmos com um filme que relaciona em seu corpus narrativo uma forte influência literária, tanto por sua origem em si, como por suas referências. Esse é o caso de O Leitor, filme baseado no romance homônimo de Bernhard Schlink, que traz uma história sobre o encontro de dois personagens em meio à conturbada Alemanha pós Segunda Guerra. Dessa relação incomum, entre um rapaz de quinze anos e uma mulher mais velha, o desejo acaba sobrepondo o desenvolvimento de outras afinidades. Desejo tanto pelo ato sexual, como pela leitura dos livros. O filme, como o próprio título alerta, é sobre Michael Berg e seus conflitos sobre Hannah. A leitura em questão acaba sendo não apenas sobre os livros, mas também sobre a alma da personagem, carregada de segredos e impossibilidades. O contato de Hannah com Michael e com literatura acaba por possibilitar sua re-sensibilização com o mundo. Temos nos livros mais citados justamente os temas que vão impregnar toda história. A culpa, em A Dama do Cachorrinho; o desejo, em O Amante de Lady Chatterley; e a redenção de A Odisséia. É dessa tríade tão recorrente em ambos os modelos narrativos que iremos constatar a maior das contradições do filme. Na ânsia de dar base a essa história com elementos tão intensos que o filme acaba despotencializando a capacidade das imagens falarem por si. O modelo clássico adotado pelo diretor, por vezes prejudica e reduz a um didatismo incompatível com a carga de subjetividade e ambigüidade que a história busca alcançar. Esbarramos assim sempre nesse “quase”, quase sentir, quase se envolver. Ao fim do filme, essa incômoda incapacidade acaba estimulando a leitura do livro (e dos livros), para que quem sabe assim cheguemos a apreciar efetivamente a alma da história.
Como bem sabem os personagens do Leitor, as vezes só mesmo a crueza das palavras pra capacitar os sentidos de sua exuberante percepção.

domingo, 23 de agosto de 2009

mãe preta

Vídeo realizado em parceria com o Cineclube Roberto Pires sobre mãe preta e suas histórias.
Recomendo!

http://videolog.uol.com.br/video.php?id=466663

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A discreta arte de não prestar atenção

Passeava meu olhar farseiro pelos detalhes banais do auditório enquanto pensava nos mais variados dilemas da minha existência varonil. A velocidade com que as palavras saiam da boca da palestrante carregadas por um possante sotaque português de Portugal só me garantia um maior envolvimento nas teias de outros universos, que cada vez mais me distanciavam daquela esquisita palestra.
De repente toda essa minha construção dialética e subjetiva esbarrou em um repetido trecho de música que de alguma maneira empacou no meu juízo: “alma, me deixa ver sua alma, a epiderme da alma”... O embate bizarro entre a voz de Zélia Duncan com a da palestrante portuguesa causou um impacto propício para repensar as reais razões da minha presença no meio daquelas caras bocejantes, diante daquele penteado sorridente, daqueles brilhantes slides carregados de gráficos e de boas intenções. Esse questionamento pareceu ainda mais imperativo quando um colega atrasado me perguntou sobre o que estava sendo discutido... Longos quatro segundos de completo branco me separaram da resposta, que ainda saiu meio engasgada: “Políticas culturais na pós-modernidade”. Sim, foi esse pomposo título que havia me pescado... É, mas também possibilitou uma poltrona confortável, uma temperatura perfeita para minha meditação de fim de tarde. Claro que a chegada em mãos da lista de presença é também fator primordial pra aliviar tais conflitos. Preencher um campo vazio com sua assinatura na frente do seu nome em Caixa alta parece justificar presença mesmo numa convenção de colecionadores de cartões telefônicos.
Imagine se não usássemos a nosso favor todas essas “perdas” de tempo? Morreríamos esperando um ônibus demorado, se irritando nas filas da vida, nas leituras sem sentidos, em aulas chatas, conversas com quase-conhecidos, vendo vídeos do youtube, etc, etc. Tornar leve um tenso e ocupado tempo com pequenos intervalos de ócio é uma arte tão importante quando tirar dos momentos de ócio idéias que ajudem na vida prática. Creio que nosso eterno conflito com o espaço/tempo se torna menos angustiante quando jogamos numa mesma suruba a razão de Apolo com o prazer de Dionísio. Dessa união divina salvamos nossa graça!
Pra sustentar tais devaneios com um ar mais canônico lembremos o que aquele rapaz bigodudo escreveu certa vez sobre: Viver – assim se chama para nós, transmudar constantemente tudo o que nós somos em luz e chama; e também tudo o que nos atinge; não podemos fazer de outro modo.*
Ou é isso ou me acostumo a dar atenção a palestrantes que passam uma hora e meia lendo um PowerPoint. Não, prefiro continuar viajando nos momentos em que meu conveniente e raro silêncio se unir a minha discreta falta de atenção, permitindo tragar do vento as inquietações e perguntas que nunca haverão de ser (graças a Freud!) definitivamente respondidas.
*(NIETZSCHE. A Gaia Ciência)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Memórias do Subdesenvolvimento

"As palavras devoram as palavras e deixam você nas nuvens ou na lua. A milhas de distância. Como pode alguém sair do subdesenvolvimento? Ele marca tudo. Tudo (...) Você está só. No subdesenvolvimento nada tem continuidade, tudo é esquecido. As pessoas não são consistentes. Mas você se lembra de muitas coisas, você lembra demais. Onde estão sua família, seu trabalho, sua mulher? Você não é nada, você está morto. Agora começa, Sergio, a sua destruição final."

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A Gosto da fotografia

Nem tudo é desgosto em Agosto... há muita fotografia pra se ver, e eu recomendo as exposições "Legado Sagrado" de Edward Curtis, e "Retratos Yanomami" de Claudia Andujar, ambas no espaço Caixa cultural...
Eu também que não sou bobo tento ajudar com as minhas aspirações amadoras, mas muito bem intencionadas... aí está "o sujeito sem luz":

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

fragmentos de um seminário

Cinema é fetiche!
E o frenético Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual busca cativar a cada ano ainda mais esse estranho objeto de adoração e desejo. Ao entrelaçar cinéfilos e quase-cineastas aos debates, filmes, performances e encontros o Seminário amplia as possibilidades cinematográficas baianas ao unir-se com outras artes e vontades. Em sua quinta edição conseguiu dar a Salvador a rara chance de ver um filme de Godard em 35mm depois de pestanejar numa poltrona vermelha no meio de um debate sobre cinema e filosofia e ainda mais tarde bater palmas ou xingar curtas e longas metragens. Claro, nem todos os debates foram sonolentos, e a sensação de usar a imponência do Teatro Castro Alves como sala de aula, e melhor ainda como cinema, é no mínimo excitante. A recorrente frustração construtiva de não conseguir ver tudo o que se pretendia é parte de todo esse exercício de seis dias, que se fez também nas tantas idas e vindas entre o TCA e o Teatro Martim Gonçalves (onde aconteceu a Retrospectiva Godard) provando que o cinema, além de fetiche, também é busca por fôlego no meio de tantos mal alimentados movimentos seguidos de transpiração. Nos intervalos das sessões e debates o Seminário era igualmente construído, afinal o que seria dele e da sétima arte sem as muitas conversas, encontros, risadas e tolerância com a queima constante de cigarros na porta do foyer?! Falar de todos os filmes instigantes é meio impossível no meio da overdose, prefiro que isso aconteça em doses homeopáticas e seletivas. Pra começar quero premiar Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo com o Prêmio Boca Aberta Sem Palavras do ano! A moça diretora Yulene Olaizola estava lá, subiu no palco, falou pouco e disse muito com o filme, que acabou infelizmente sendo pouco visto. Depois de ter lotado o palco da sala principal com metade da platéia, Pau Brasil a grande estréia baiana, de Fernando Belens, também conseguiu surpreender (pro bem ou pro mal), arrancando um gritante "Bravo!" do colega Navarro. Os curtas têm um papel fundamental no Seminário, além de darem o tom competitivo, garantem espaço pras produções baianas. No entanto foi desse aspecto tão nobre que o evento conseguiu provocar o maior dos equívocos. Eles resolveram dividir a premiação do melhor curta-metragem em duas categorias, baiano e nacional... Até aí nenhum absurdo, porém ao contemplar em ambas as categorias filmes de nossa terra (Cães e Nego Fugido) o evento agrediu o juízo de sua própria importância, premiando sim o estranho e desnecessário bairrismo. Aos meus coçantes olhos Os Sapatos de Aristeu foi o curta que conseguiu arrancar mais brilho. Houve ainda na última noite, além da tal premiação, um mini-musical-cabaré-bahiwood (?!), performance essa que arrancou vários suspiros de vergonha alheia da platéia, que aplaudiu mais no intuito de adiantar o término. Apesar desses momentos menos–melhores o Seminário acaba sempre deixando a vontade por mais, e junto com a Jornada de Cinema dá a cidade um pouco mais de empolgação e dignidade pra difícil arte de gostar e pensar Cinema. Mesmo com seus méritos consolidados não há garantias que o Seminário vá acontecer ano que vem, cansado de ficar com o pires na mão o organizador Walter Lima já avisou: “Não estou a fim de ter enfarte”. É a crise... Torcemos que role e que mantenha o foco no que sabe melhor proporcionar: bons filmes e adubo pra cabeça.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Um cinema de conflitos - "A festa da menina morta"

O cinema suporta qualquer dor. Melhor dizendo, o cinema é o espaço por excelência da diluição da dor... E quando a dor, de tão grande, estraçalha essa estrutura diluidora, o cinema deixa de articular, entra em estado de pânico ou de afasia, agônico. – Carlos Diegues

Provocar o espectador custa caro, e algumas vezes também é tarefa nobre. Há filmes que praticam tal risco de uma forma tão certeira que nos deparamos com uma quase embaraçosa ausência de juízos de valor bem definidos, o que nos faz obrigatoriamente inclinar sob uma das possibilidades: o silêncio matutante e inquieto, ou a necessidade em preencher tal incômodo com uma qualificação rápida, acabando logo com maiores prolongamentos ou possibilidades mais exigentes. Ao final de A festa da menina morta eu rastreava definições, e dessa agonia percebi que justamente da ausência destas que o filme parece buscar algum valor. Definir pra que mesmo?! Eis que tal descompromisso lhe impregna de um caráter contraditório tanto por impulsionar, como por muitas vezes distanciar o espectador. Em sua primeira empreitada como diretor Matheus Nachtergaele largou sua pedrada com um gosto amargo e desconcertante. Ao mesmo tempo em que buscou originalidade temática e geográfica, bebeu de fontes já conhecidas do cinema contemporâneo. Os contornos dramáticos e a estética virulenta de Claudio Assis (Amarelo Manga/ Baixio das Bestas) estão lá, claramente estampados nos enquadramentos perturbadores e belos de Lula Carvalho.
A diversidade do roteiro, que se ergue principalmente na religiosidade ribeirinha entroncada com a incestuosa relação pai/filho, torna superficial qualquer simplificação. Os simbolismos dos corpos, da natureza amazônica reinante (o rio abissal, a mariposa inquieta, a galinha ensangüentada, o berro do porco), dos objetos (o vestido da menina morta), caminham juntos pra compor a narrativa desse universo cinematográfico denso, angustiante, quase impróprio. E o risco de cair no folclórico, no exótico bem lustrado já tão explorado no cinema nacional parece tentador quando se trata de focar realidades não-urbanas, aqui, no entanto essa apelação escapole por não tentar enquadrar a celebração religiosa em explicações ou motivos. O que rege o filme parece ser a perseguição angustiada daquelas pessoas por um encantamento maior contra um vazio que tanto oscilam e temem em cair... E dessa busca todos padecemos, cada um a seu modo. Nachtergaele opta por um cinema de conflitos, que consagra a tensão constante, onde os atores parecem náufragos em seus personagens, concebidos dentro de uma concepção clara e recente de ficção impregnada por traços documentais. Temperamental, andrógeno, fútil com suas coroas de milagreiro, o personagem de Daniel de Oliveira perde consistência quando reflete diretamente ao modo de atuação de seu diretor. Os personagens mais intensos parecem ser justamente aqueles que estão nas arestas, que aos poucos revelam suas fraquezas, seus delírios, colocando argamassa no todo. As longas cenas, sem cortes, dão a trama um tom guiado por uma trágica dinâmica teatral, que alcança e sufoca mais desprevenidamente os ocupantes das poltronas da sala de cinema, que de susto parecem reagir as vezes com espasmos gargalhantes nas cenas mais absurdas, sem significados óbvios. Aqui não acharemos nada óbvio, e isso tanto pra o lado das cenas em que o excesso gratuito cansa e prejudica (os xiliques do Santinho, o delírio do Padre), como nos momentos em que a espontaneidade dos diálogos e situações garante um fôlego mais envolvente (a velhinha que conversa com a boneca, ou o índio reclamando com a mulher na cozinha).
Assim como Feliz Natal de Selton Melo, Nachtergaele parece movido por uma inquietação artística ainda maior, da qual seus papeis e carreira bem sucedida não davam mais conta. Ambos os atores, agora também diretores, movidos por tanta fome cometem exageros em suas películas, mas com tanta vontade acabam também criando momentos enriquecedores, bonitos, provando o quanto sabem contar histórias, e partindo da dor, da abertura das feridas para solidificar suas intenções.
O espectador que se contentar com a segunda inclinação do início do texto desvie o olhar até mesmo do cartaz, há uma centena de filmes que se enquadram ou não exigem mais que um “bom”/ “ruim”, duas ou cinco estrelas. Sem conforto algum, A festa da menina morta exige um tempo maior, para além da projeção, apontando pra opções mais numerosas, não apenas pra si, mas pro cinema movido mais do que por seus prodígios técnicos, mas por carregar uma essência, uma alma. Essa ânima só será exorcizada e aí sim definida se a coragem e a consciência crítica permearem ambos os lados da tela.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

outras nações


"Nós precisamos de um conceito mais novo, sábio, e talvez mais místico dos animais. Longe da natureza e vivendo através de artifícios complicados, o homem na civilização vigia as criaturas através do vidro do seu conhecimento e vê portanto, os detalhes de uma pena mas uma imagem geral distorcida. Nós os patronizamos por serem incompletos, pelo seu trágico destino de terem se formado tão abaixo de nós. E nisso nós erramos gravemente. Pois os animais não podem ser avaliados pelo homem. Num mundo mais velho e mais completo que o nosso eles se movem completos e confiantes, dotados com extensões dos sentidos que nós perdemos ou nunca possuímos, guiando-se por vozes que nós nunca ouviremos. Eles não são irmãos, eles não são lacaios. Eles são outras nações, presos conosco nesta vida e neste tempo, prisioneiros do esplendor e trabalho da terra."
The Outermost House, Henry Beston

sexta-feira, 10 de julho de 2009

criatura da noite

Lembro quando fixava os olhos na fresta da porta entreaberta do meu quarto, imaginando que a qualquer momento as coisas mais terríveis pudessem lentamente surgir pelo batente. Minhas noites infantis não eram diferentes das de outras crianças que começam a entender o mundo, algumas de suas complicações. A cada barulho noturno, cada estalo que a geladeira pontuava lá estava eu crendo que esses eram sinais da proximidade dos tais seres. Extraterrestre era algo que me arrepiava o juízo e todos os meus poucos pêlos... Havia uma moda televisiva na época de repetir os relatos de raptos e aparições, seguidos das descrições perfeitamente ilustradas: cabeça grande, corpo fino e branco, boca e nariz mínimos, (e a pior de todas as características) olhos negros, enormes e brilhantes. O Globo Repórter e o Fantástico não têm idéia de quantas mentes traumatizou com sua falta de assuntos e pautas mais dignas.
Fui inventando várias artimanhas para chamar a atenção dos meus pais, que não demoram a perceber que não havia nada nas minhas tosses secas além da falta de coragem de admitir o medo. Cheguei a temer as aparições de Nossa Senhora, que ela quisesse revelar os segredos do mundo pra mim. “Me libera Maria, me libera.. Eu não mereço!”. Rezava pedindo perdão a deus por isso, mas era medonha a imagem do rosto neutro, límpido, emanando luz e paz envoltas em um véu de cores pastel vindo em sua direção no meio das nuvens... Credo!
Foi aí que comecei a desconfiar que algo de estranho havia nisso tudo. Deparei-me com poucas alternativas: a loucura frustrante ou a invenção criativa... Acho que me alimentei de um pouco de cada. Desse hibridismo fui tomando gosto pela noite, achando outros barulhos e silêncios, percebendo que havia enormes possibilidades antes de fechar os olhos pra contabilidade caprina. Conversas demoradas, desenhos toscos, fitas VHS, livros, poesias caóticas, fones de ouvido. Acredito que me moldei principalmente através desse trovadorismo noturno, dessa hora melhor pra achar que tudo pode ser inventado... Sem medos!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Tudo que está estagnado

Saia de mim vomitado,

Expelido,exorcizado


Tudo que está estagnado


Saia de mim como escarro
, Espirro,
pus,
porra,
sarro,
Sangue,
lágrima, catarro.

(arnaldo antunes)

sábado, 27 de junho de 2009

Nós, os vivos (As Intermitências da Morte)

" O que sabes tu sobre a morte (...) Não compreendes que te estou pedindo que me mates, que te estou pedindo vida?"

Nesse trecho de Os Reis de Julio Cortázar (releitura do mito de Minos), o Minotauro questiona Teseu sobre a morte e suas outras significações. Teseu parece mesmo saber pouco sobre ela, e parece representar também a maioria de nós, que sempre tratamos a morte como um monstro que deve ser temido, e até ilusoriamente extinguido, assim como um Minotauro... E é ele próprio que arremata: " só há um meio de matar os monstros: aceitá-los".
Quando Saramago nos narra a absurda greve da Morte parece buscar essa reflexão sobre o modo como recusamos aceitar sua existência, e é do mesmo modo que inicia que ele termina As Intermitências da Morte, como se no fundo o fim tivesse o mesmo sentido do princípio: um desconhecido amedrontador. Se tratando de um livro sobre a Sra. Morte tal idéia me parece ainda mais considerável, já que ao falar dela, o velho Saramago quer apontar o dedo sobre nós, os vivos. Num primeiro momento a tal greve de morte parece nos garantir alegria , alívio completo em nossa penosa existência, no entanto logo percebemos que no meio dessa ingênua tolice emerge um caos ainda pior sem Ela... Maldade, injustiça e tristeza existem independentes da dita cuja. Como sempre impiedosamente fantástico, Saramago nos envolve nesse mundo que parece impossível, mas que como sempre é cercado de um argumento absurdo para estampar suas verdades causticas. Em Seis propostas para o próximo milênio, Italo Calvino reflete como há questões que só a literatura pode representar com a devida profundidade, mesmo num mundo guiado pela imagem. Na primeira parte de Intermitências há um peso rastejante, como os corpos dos quase-mortos, e na segunda parte ele ganha uma leveza (que é a primeira proposta que Calvino defende) mesclada a um humor sutil. É uma leveza transgressora justamente por aparecer no momento em que nos aproximamos dessa Morte já tão duramente representada em nossa história. No livro ela re-surge humanizada, personificada em questionamentos, erros, e numa tristeza por tanto nos conhecer.
Ainda há dentro da literatura recente esses tipos raros que nos fazem querer guardar bem dentro cada trecho, orações inteiras com cada ponto e vírgula necessária ao arrepiamento dos cílhos do olho esquerdo. Não demora muito para que entre nossos dedos restem poucas páginas, mas ainda tão cheias de um latente fôlego narrativo. Ao final a personagem principal contraditoriamente inspira e ganha ares heróicos, pois carrega no fundo uma vontade maior, uma torcida para que a notemos, dando talvez mais sentido a cada dia, cada fim de tarde, cada pessoa e palavra que nos rodeia. Nossas reclamações e conflitos, claro, nunca cessarão sobre Ela, mas que saibamos também converter nossas dores em consciência e leveza, pois se haverá na Morte um tudo ou um nada será mesmo só nela que poderemos despertar desse não-saber, e aí... aí será.

sábado, 13 de junho de 2009

sobre inferno

Tive um temeroso sonho certa vez... No meio de uma cidade estranha e vazia todas as pessoas que gosto passavam por mim com olhares reprovadores, como se estivessem fugindo... correndo, em cavalos... Depois ouvi algo como "agora essa cidade é só sua". Nesses dias lembrei desse sonho lendo sobre umas das cidades invisíveis de Calvino... Senti a inquietante sensação, a estranha nostalgia sobre aquilo que não aconteceu... Logo pensava sobre essas pessoas, em cada uma, suas feições, seus modos de falar, reações, e principalmente seus olhares... Me vi no quarto só, mas com tanta gente circulando por dentro, mirando cuidadosos o que lia sobre elas:

"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte dele até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."
As cidades invisíveis - Italo Calvino

quarta-feira, 3 de junho de 2009

GARAPA

Quando soube ano passado do novo projeto de José Padilha pensei que haveria ali chance mais concreta de avaliar sua obra. É audaciosamente corajosa sua tentativa de tratar sobre a fome num documentário, depois de tanto já ter sido acusado em seus conhecidos e polêmicos projetos anteriores. Padilha parece perseguir as dores que nos cercam, e que tanto já banalizamos. Se em Ônibus 174 (um dos grandes momentos do documentário brasileiro recente) e Tropa de Elite ele buscou questionar a violência urbana através do olhar dos seus protagonistas, em Garapa a fragmentação de tal olhar é essencial para entendermos a gravidade do problema, representado nas misérias angustiantes de três famílias cearenses. Os momentos catárticos e os finais trágicos dos outros filmes, permanecem aqui constantes logo nas primeiras cenas, e que não tardam a silenciar os sacos de pipoca que os espectadores automaticamente carregam pras salas de cinema, mesmo cientes do assunto em questão. Em meio ao preto e branco granulado, que parece querer aliviar a dureza das imagens, questionamos nossas prioridades, os tantos absurdos que nos cercam, e tal exercício de (re)humanização não irá se restringir apenas ao tempo da projeção. A água misturada com açúcar que intitula o filme, e que alimenta aquelas crianças parece também descer por nossas gargantas, e é um amargo paralisante que logo se converge em espasmos de revolta. 
Os já esperados debates sobre as inclinações políticas lulistas (ou não) do filme perdem força para um outro muito mais válido: Como pessoas minguam até a morte de desnutrição enquanto políticos passam anos se acusando em seu inferninho central acolchoado?! 
Toda obra cinematográfica já é em si um objeto político, e quando ainda esta se responsabiliza claramente em reapontar tais centenárias feridas, percebemos que nada mais essencial para validarmos a relevância da obra de um cineasta. O olhar seco e direto de Padilha incomodará muitos mais uma vez, e que dessa farta discussão surjam soluções menos vazias, disso já basta a barriga destes tantos.  

terça-feira, 26 de maio de 2009

Um dia conseguirei escrever uma linha sobre o Cinema de Tarkovski


"Amo muito o cinema. Eu mesmo ainda não sei muita coisa: se, por exemplo, meu trabalho corresponderá exatamente à concepção que tenho, ao sistema de hipóteses com que me defronto atualmente. Além do mais, as tentações são muitas: a tentação dos lugares-comuns, das idéias artísticas dos outros. Em geral, na verdade, é tão fácil rodar uma cena de modo requintado, de efeito, para arrancar aplausos... Mas basta voltar-se nessa direção e você está perdido. Por meio do cinema, é necessário situar os problemas mais complexos do mundo moderno no nível dos grandes problemas que, ao longo dos séculos, foram objetos da literatura, da música e da pintura. É preciso buscar, buscar sempre de novo, o caminho, o veio ao longo do qual deve mover-se a arte do cinema."


Andrei Tarkovski - "Esculpir o Tempo"

sexta-feira, 22 de maio de 2009

o brega que é bom

Pelo passeio público do Vila fui abordado por Telma, uma mulher que dizia ser poeta... No dia anterior tive uma aula meio insossa sobre literatura marginal. Telma que acabou me ensinando alguma coisa, me deu um papel, e disse pra eu abrir em casa. Perguntou se eu tinha cigarro, "não fumo", e não pediu mais nada... Disse que era um poema meio brega, "mas o brega que é bom né", rindo, e foi andando dizendo que foi com a minha cara. Claro que eu abri o tal papel no busú mesmo:

eu espero ser outra coisa a cada vez

que você olhar
para que você não veja isso que eu sou
eu espero ser um bem-te-vi
a cada vez que você me olhar...

Sabe, seria claramente lindo se você ficasse
na minha vida por um tempo.
eu gosto quando cava em mim esse buraco de carinho...
que só eu entendo.

Vai, me põe no teu colo
me diz que sou tua filha
e chora no meu seio os teus anos
Não,
espera um pouco.
Deixa eu me perder um pouco na tua casa
e chamar o teu nome...
vou pegar-te um copo d'água
E ficar com essa sensação de te ter em meu corpo

Depois dizem que perdemos nossa delicadeza...
Gostei muito! Abraço Telma!

terça-feira, 19 de maio de 2009

olho grande


Pessoas começam a se aglomerar em torno de uma mesa em pleno sábado, no Mam. O debate se inflama, um fala mais alto, pede a palavra, xinga, risadas coletivas saltam, silêncios e cochichos intercalam toda discussão... Logo estava envolvido por aquela baderna, não sabia como, mas já fui me intrometendo com julgamentos voyeurísticos. Toda aquela dinâmica não podia passar despercebida por minha falta-do-que-fazer-da-porra, mas afinal, do que se tratava? Prestei atenção a tantos detalhes, olhares, no entanto nem sabia ainda a razão daquilo. Um pensamento mais rasteiro me levou a achar que poderiam ser estudantes resolvendo crises para uma futura formatura... Outro pensamento mais pretensioso me fez arriscar que se tratava de um grupo jovem de partido político, ou quem sabe evangélico... Não, nada disso se encaixava naquele mundo particular. Aquele anonimato gritante me angustiava! Meu olhar foi buscando outras referências... Um deles usava uma camisa com uma imagem já meio desgastada, fui decifrando, ligando pontos, e percebi que era uma mulher sorridente, com um cara do lado... Uma moça fechou o caderno com a capa colorida, estava de cabeça pra baixo, mas não desisti. Fui lendo lento: C-a-l-y-p-s-o... Normal, mas logo depois ouvi palavras como “show”, “ônibus”, e pra matar um celular chamou com uma guitarrinha que remetia a imagem da capa do caderno. Sim, era o encontro semanal do fã clube do Calypso, e como eu demorei pra perceber. Desde último encontro regional de estudantes de história que não via tamanha contenda. No entanto o nome da vez não era “Marx” ou “Thompson”, e sim, “Joelma, Joelma”. O único momento de consenso foi quando comentaram a respeito do novo comercial do suco em pó Fresh. “A vida é mais legal quando tem Fresh!”, em coro.

Outro sábado, outro mesa, outro museu, outra reunião. As pessoas se abraçavam, sorriam, conversavam receptivamente, fumavam e tomavam coca. Nenhum suspense. Era reunião do Greenpeace. Estranho a falta de debates, discussões. Ficaram horas desfilantes com camisas com frases de efeito, e depois de algumas horas agradáveis se dispersaram quase como os personagens da malhação depois de uma festa. Só sei que o fã clube do Calypso foi muito mais instigante de acompanhar... E isso o quer dizer afinal? Que o fim está próximo?

Talvez, mas certo é que meu olho é grande.


Fã Clube - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=64005889

Comercial do fresh - http://www.youtube.com/watch?v=Q7WyvWkRh1M&feature=related

Greenpeace - www.greenpeace.org.br

sábado, 16 de maio de 2009

tão, tão...

Paul Klee: "Som Antigo".

a fúria dormiu na rua
comeu um pão velho do lixo
rosnou pro cão sarnento
mijou em cima do cego

a fúria era filha da puta
e da rua,
fudeu com o medo
no beco cheio de rato

O sorriso da criança vai sumindo lento enquanto ela adormece no colo da mãe...

Pois um mundo assim tão, tão ... é o que temos!

(Escrito na porta do banheiro mais próximo...)

domingo, 10 de maio de 2009

chuva nas idéias

Acordar com as primeiras piscadas desajeitadas e sentir o leve ardor dos olhos, se deparar com a janela entreaberta revelando um cenário cinza e chuvoso entre os prédios, é irremediavelmente inspirador pra mim. Há anos uma frase ecoava em minha memória:

"Venha a chuva e caia sobre mim,
Sobre minhas idéias...”

Composta com Leo como canção na varanda de casa, acabou como tantas outras, inacabada, perdida aos acordes do momento. Restou-me esse trecho, e nele me apeguei nesses dias molhados, e resolvi assim liquidar essa dívida com outros versos e melodias. Um ócio criativo regado a café, filme, pernas esticadas no sofá, e todas essas tranqüilas sensações privadas que dias como esses podem trazer... Tudo isso contrastou drasticamente com o quadro agoniante e confuso que se apresentava do lado de fora. Como sempre as imagens nos falam, nos revelam as palafitas que sustentam nossa cidade... Um suspiro de ridículo me subiu por trás da orelha ao notar que meu pretensioso olhar poético se alimentava justamente do que derrubava, paralisava, e transtornava tantos outros. Questionei minhas intenções, o que me instiga a criar. Questionei aquela simples idéia imperativa de que a chuva podia muito pelo contrário nos aliviar dores, securas... Que ela pulsando do céu pudesse lavar e levar gostos amargos que o cotidiano às vezes nos condiciona. Lembrei da "Rosa de Hiroshima" de Vinícios. Há de se ter muita coragem, além de talento, pra falar de tragédias tão absurdas de maneira tão sensível, bonita, agradável, sem perder o tom denunciante da palavra. Lembrei de "Guernica" de Picasso, do "Grande Ditador" de Chaplin, dos poemas de João Cabral. Todos esses clássicos exemplos de fantásticas criações que me certificam que não há maior função de um artista que potencializar a reinvenção de mundos, de se responsabilizar por eles. Lembrei de Paul Klee quando disse que a arte não reproduz o visível, mas que nos faz ver, como Bergman nos revela em "O Sétimo Selo": o artista que enxerga o lirismo em meio à constatação dos nossos maiores medos. Pra mim não existe futuro sem essa ousadia, talento... e coragem!
"Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito"
Paulinho da Viola