terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

eu, outro, você

Num primeiro momento era através do rosto das pessoas que eu tentava entender o cotidiano de cada cidade, posto de gasolina e vilarejo que cruzava. Um homem de meia idade lendo um jornal no metrô de Santiago; uma boliviana mascando a folha de coca em uma estrada na Bolívia; a menina que dançava sorridente nas ruas de Puno. Analisar a disposição do olhar de cada um parecia o melhor meio pra tentar entender o normal de cada lugar, talvez como um modo ilusório de me sentir parte, imperceptível. Não, ser percebido como o-outro sempre parecia maior. Meu desencaixe estava justamente nesse meu olhar interessado, quase antropológico, como se quisesse colher tudo que se podia de cada contexto.
Perguntei ao homem ao meu lado no carro: "Como é ser taxista em Lima?", ele me olhou de lado, com uma expressão surpresa e positiva. Provavelmente ninguém havia lhe perguntado aquilo... Não tardou a me devolver também um questionamento. Senti a dificuldade e o prazer em responder sobre mim, sobre meu lugar.
Não há como se apropriar das outras realidades sem despertar uma possibilidade mútua de interesse. Eu, ali como um outro mais plural, me aproximando levemente sobre um emaranhado de possibilidades e trocas. Um homem de meia idade lendo jornal, uma boliviana mascando folha, a menina dançando, o taxista falando. Quis ser por um minuto aquelas vidas... Expandir-me impossivelmente sobre seus espaços... Sair de si esquecido e ser dominado por outras lógicas, outras crises e certezas.
Em um movimento contrário e drástico de pensamento voltei pro meu quarto (tão distante), como se aquele delírio tivesse também o momento certo pra demarcar seus limites. É esse ir e vir que me cerca agora, congestiona algumas idéias, liberta outras, responde, cria novas perguntas - como as de Dante, o taxista. Como se integrar subjetivamente aos infinitos caminhos que exigem a nossa presença? Como podemos nos conhecer?
Pra que rostos você irá olhar amanhã? Que lugar buscará ir?
Que perguntas te farão?

10 comentários:

Urânio Coutinho disse...

Essa é uma abordagem que me fez pensar (...eu, voce e o outro...), uau!!! Meu filho talvez seja escritor e não saiba, a forma como envolve o Leitor em suas viagens escritas ...em Frente Guerreiro ...kkkk
Abraços ...Saudades
Fhater

claudia disse...

Alguém já disse que a maior viagem que podemos fazer é para dentro de nós mesmos.Pra mim, a maior "viagem" é pensar que podemos deixar de ser estrangeiros aos olhos do outro.
Bjo, Romonito!

artur rios disse...

viajei. de repente, são esses questionamentos que nos preenchem mesmo, haja resposta ou não.

camila kowalski disse...

Ramón, você me emociona com suas abordagens tão sensíveis de cada episódio dessa nossa Caravana. É preciso estar muito aberto à reflexão e muito disposto a imergir no mundo do outro, do desconhecido, para perceber, nos pequenos detalhes, um mundo infinito de perguntas e respostas... Continue escrevendo, porque é um bem para todos nós :)

André Luís disse...

Nossa visita é muito mais complexa do que a de meros turistas. Estamos aqui como pesquisadores, e sentimos a necessidade de se apropriar de mais do que o simples registro da passagem pelos países. Levando em conta que passamos muito rápido pelos nossos destinos, será um grande feito construir um sincero sentimento latino. Mas, cá entre nós, acredito que estamos conseguindo absorver o máximo possível. Credito isso a você, Ramón, graças a sua visão rica e motivadora. Todos temos sorte por tê-lo conosco.
André

SONHO ESTRANHO disse...

talvez sejamos todos ao mesmo tempo, por isso conhecer aos outros é transcender os limites da vida e passar a se olhar no espelho.

Carlos Vin disse...

O delírio de encarar o outro desconhecido, de enxergar o outro se colocando psicologicamente como o próprio outro, é um ato de sabedoria...

O interessante também é encarar, ou tentar enxergar o outro conhecido, tentar ver, encarar mesmo, o outro que é seu amigo, irmão, conhecido... E entender, mesmo que sutilmente o mundo daquela pessoa que você já conhece...

Sarah disse...

Ramon querido, que bom ler suas reflexões e nos perceber em viagem. E que saibamos simplesmente ser e estar nos lugares, respeitando o limite desconhecido e nos alimentando da diferença, sendo-nos também diferentes.

Um grande beijo,
Sarah

Izabel Cruz Melo disse...

Ai que esse menino me mata de orgulho!!
Super feliz de te ver assim, arrasando por nuestra america!
beeeeeeijo!
Izabel

Anônimo disse...

Ola Ramon, Hoje, alguem que conheci me indicou seu blog. Que bom que entrei.São poucas as pessoas que buscam ainda se colocar a serviço da reflexão diante da complexibilidade que é o nosso viver.

hoje alguém me perguntou ( após ter constatado que eu estava prestes a terminar meu casamento) Por que você suportou treze anos? e agora quer separar? Eu lhe respondi: hoje não quero responder essa pergunta, e sim lhe fazer outra, por que tenho que suportar mais treze já que a felicidade esta distante de nos agraciar diante das nossas incompatibilidades? Bem, ele preferiu encerrar a conversa ali.

Felicidades fique em paz e muito sucesso!

Parabéns pelo blog, e dá um beijo em Alda (do Pau da Lima) por mim...
Seu futuro amigo, MARCELO!