terça-feira, 21 de junho de 2011

domingo, 12 de junho de 2011

um ano que eu pisava em ti

Foi naquele dia dos namorados que eu pisei pela primeira vez em você... um dia que poderia ser como um qualquer desses bestas por aí, mas meus passos confusos e empolgados estavam ali sobre ti, do jeito que você pareceu gostar. Sei que te usei, fotografei, rodopiei, apaixonei, mas quando te larguei uns meses depois foi com todo dó e nó no peito, nos pés.

Ó Cuba das minhas madrugadas febris, deixe eu pisar de novo em você!

domingo, 5 de junho de 2011

Tomás - A última ceia

Poner en orden mi vida.
Todo lo que escriba ahora tendrá ese único fin. Ver quién soy y llegar a saber hasta que punto soy consequentemente con lo que yo creo que soy. Hasta que punto es coherente este transitar por la vida. Hasta que punto tirne un sentido. En qué medida, si no vigilio mis pasos, puede dividirse todo en una gran equivocación, en algo torcido y estúpido.
El hilo conductor va a ser mi trabajo porque es aquí donde se sintetiza en algo concreto lo que me mueve.
Tomás Gutiérrez Alea



terça-feira, 31 de maio de 2011

Momentos pagãos e sagrados com Paul

Era um homem de estatura mediana a mais ou menos 60 metros que eu tentava enxergar entre mãos, cartazes, gritos, palmas e luzes ofuscantes. Diminuído pela distância, mas duplicado algumas vezes pelo telão, pela canção bendita - "all your life you were only waiting for this moment to arise"- deixando a moça desconhecida mais próxima de mim com os olhos úmidos, em tons avermelhados e recheados de uma emoção que se manteve contida por várias horas de espera... A fila era pra ver aquele senhor com mais de setenta anos entornando melodias e tons, conduzindo sensações desde os nossos antigos e mínimos momentos. Imaginei a menina que foi embalada no berço com o pai balbuciando "the long and winding road”, ou aqueles primos que brincaram na rede ao som de "o-bla-di o-bla-da". Cada um expandia suas memórias compartilhando o quando, como e onde tiveram suas histórias emolduradas por aquelas músicas. Bastava encostar na fila pra escutar as justificativas, os esforços, a vontade cheia de ansiedade em estar ali.

Tantas expectativas positivas não impediram uma dose estranha de tensão, proporcionada pelas armas e caras policialescas em torno, protegendo o direito, a compra correta dos ingressos. Era entre fãs e homens da lei que tentávamos burlar o esquema, numa mutreta conturbada com um cambista de terno e gravata, com uma refinada e inesquecível listra dourada no meio dos sapatos pretos. Parecia justamente o tipo de cena que muitos julgariam inverossímil se vissem fora da vida real. O cambista (que taxativamente negava tal nomeação) enrolava, ia e voltava prometendo toda a garantia e direitos ao consumidor como se fosse o gerente das casas bahia, concatenando ideias no mais puro sotaque de malandro carioca. Era Paul, não podia sair barato, diziam, enquanto o lucro ia sendo injustamente repartido. Alguns vigiados pela polícia enquanto outros, como sempre, protegidos e guiados por ela. Foi assim que repentinamente, enquanto criticava o modelo de consumo e apropriação do discurso de massa pelos beatlemaníacos, notei um burburinho crescente: cachorros rosnando, rádios emitindo chiados, um coro de fãs ensaiando sua performance gritante, e "… Paul chegou!", ouvi inquieto. Me vi como ímã encostando na barra de ferro a minha frente, vendo o aproximar veloz de uma maosinha simpática pra fora do carro. Pude sentir um tremor contraditório subindo pela garganta que pareceu um berro... Pronto, a partir daí já estava aquecido pra o que viria: uma tempestade de clássicos que trilhavam entre a fase Wings, solo e aquela que muitos parecem preferir, a conhecida fase dos besouros. Meu corpo foi rodopiando e balançando na medida em que o setlist ia sendo executado. Tamanha turbulência me causou uma ligeira amnésia que impedia de lembrar quantos clássicos estavam por vir ainda. Fenômeno esse que curiosamente só reforçava a força das músicas em seus primeiros acordes. Depois de “Yesterday” e “Eleanor rigby” já se podia esperar todo tipo de comentário da platéia. Uma velhinha baixinha passou gritando “lindo, gostoso” e outra de 14 anos dizendo “ele é tudo pra mim”. Era mesmo um show-culto que respeitava evidentemente os momentos pagãos e os mais sagrados. Em "helter skelter" eu pisava e dançava sobre as cinzas dos deuses maias, assumindo o transe da loira do banheiro até ser tocado por uma mão estranha segurando meu ombro. 1, 2, 3, 4 segundos de tensão. O estranho só tentava passar sem ser atingido por um braço em descontrole. Já em "Hey Jude" liberava todas as energias e tragava outras num mantra de quase dez minutos de "naaaaa-na-na-na-na". Engraçado como a gente só se une pra cantar uma música pop, pra torcer pelo time ou pra beatificação de uma nova santa. Só. Estádios sempre são palcos das unanimidades. Pior era como boa parte dos presentes vivenciaram tudo aquilo através das lentes das câmeras e celulares que impiedosamente gravavam o show, numa epifania que parecia eleger a simulação como meio de sentir. Eu ainda tentei registrar alguma coisa, mas fui impedido oportunamente graças a explosão de "Live and let die". Viva a rouquidão e as dores de pescoço...

Como se não bastasse o bom-senhor-com-cara-de-moço-simpático, depois de soltar várias vezes algumas frases em um português truncado, ainda recebeu no palco quatro fãs em prantos, pedindo autógrafos, abraçando repetidamente e saindo como se abençoadas pela entidade... É, na ausência dos deuses muitos elegem mortais bacanas para seus altares.

O cara ali no meio de tudo podia ser mesmo um mito, um herói pra muitos, um cover dele mesmo, e depois de duas horas e meia de show e alguns dias depois da experiência, continuo sentido uma rara e contagiante constatação de perceber como muitos querem mesmo é simplesmente encontrar brechas pra achar as mesmas coisas... deixando ser e viver sempre perto das antigas e boas canções.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Liturgia das horas

Ontem sonhei.
E como no dia em que te vi
Ainda era noite.

Ontem sonhei,
E tinha tudo,
Imagem esquecida,
Na noite
Em que te vi.

Ontem,
A dizer de ti,
Tinha, pelo rosto,
A sua imagem
Antes de partir.

A se dizer de mim,
O cheiro de luto
Vestida pela
Noite carmim,

Ontem,
Conquanto fosse você,
Seria estranho reconhecer-lhe
O dorso.

Apenas o rosto.

Ontem,
Como antes,
Se não houvesse ontem,
Antes mesmo que,

Anteriormente,
Não fosse noite,

Antes mesmo
Que,
Antigamente,
Fossemos nós,
Envelhecidos.

por - francisco gabriel

domingo, 8 de maio de 2011

Tarefas de casa

Matéria - Fotografia cinematográfica
Tarefa - Escolher uma fotografia de um filme e comentar

"Stalker" (1979) de Andrei Tarkovsky – Difícil tratar de um filme como Stalker analisando apenas um fotograma, no entanto, esse em questão parece resumir a proposta que o filme e o cineasta tentou discutir em boa parte de sua filmografia. A busca do homem em solucionar suas angustias não só internamente, mas também através do espaço, de chegar a um lugar-essência, diante dos mistérios que nos desencaixam de um ambiente hostil e ameaçador. O uso aparente da luz natural cobre toda a fotografia dando a profundidade de campo uma amplitude que reforça a ideia da pequenez do sujeito, sua incapacidade de seguir, mover-se em prol do encontro, como se quisesse reverter o sentido da existência e voltar a posição fetal, de útero, segura. Perdido e ilhado em si, cercado pelos muros rachados, e por uma água tão turva que é incapaz de refletir mesmo as sombras, o único que parece entender a situação e o meio é o cão que rodeia, talvez como vigia, talvez como algoz.

Matéria - Oficina de Realização
Tarefa - Realizar vídeo de 1 minuto tendo como tema central o cinema
Título - "Que horas é a sessão?"
Equipe - Tainá, Danilo, Luan, Francisco, Marcus


Matéria
- Cinema Baiano
Tarefa - Realizar comentário crítico sobre um dos filmes vistos em sala
Título - Resistência, dedicação e paciência em“Talento demais”

Mesmo diante de uma crise iminente e agônica o cinema baiano parece nunca perder a capacidade de questionar modelos, provocar a si próprio e sua história. Nessa perspectiva metalinguística Edgar Navarro constrói “Talento demais”, debochando e homenageando aqueles que se aventuraram nessa contagiante contradição histórica que é fazer cinema na Bahia.

Mesclando passado e presente, resgatando personagens e os confrontando numa mesma sequencia, Navarro expõe, através de nossos ícones cinematográficos, a incapacidade de nos libertarmos de uma constante crucificação política/ cultural que nos impede de produzir outros sentidos, histórias, espaços e ideias para nossas câmeras na mão. Estamos atados ainda a esses personagens, não apenas por celebração, mas como condição, não à toa Navarro costura sua narrativa através de um remake da emblemática cena Meteorango Kid, filme que já escrachava as mesmas questões mais de vinte anos antes. Todo esse alardeamento homenageador de “Talento demais” se edifica não apenas por seu tema, mas principalmente pela pela forma que imprime suas imagens. O vídeo falando de cinema parece insuficiente esteticamente ao mesmo tempo que reforça sua denúncia, sua febre, tendo o improviso no lugar da engenhosidade e criatividade, como foi com os cineastas que precederam Navarro e seus companheiros. A textura jornalística de “Talento demais” é ainda mais acentuada pela voz garbosa que nos guia em off pelas várias fases da nossa cinematografia. Talvez sejam essas contradições estéticas que Navarro queria nos expor junto dos depoimentos, das imagens de arquivo, da personificação desse cinema em cada um que surge na tela como diretor, realizador, ator ou personagem. Ali, mesmo meio inconfortáveis diante da fita magnética, unem suas angústias e provocações com uma dose aliviante de ternura e humor.

A lentidão e o talento (do qual o título une os sentido) desses processos cinematográficos no Brasil, na Bahia, demonstram que não bastam ideias para o fazer cinema, mas também resistência, dedicação e paciência. Ao fim de “Talento demais” tendemos a seguir por dois caminhos, ambos dolorosos: o desencanto apocalíptico ou a redenção a favor do transe encantador das imagens. Observando a carreira de Navarro antes e depois desse vídeo não é difícil definirmos qual a escolha mais evidente, necessária.

Matéria - Cinema Internacional
Tarefa - Estudar pra prova de amanhã


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Tio Boonmee, que pode duplicar a experiência do visível

O filme desfocou umas três vezes, a luz vazou da tela, mas foi engraçado como esses pequenos defeitos de projeção contribuíram para que os sentidos simbólicos de "Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas" ganhassem ainda mais campo e profundidade. Depois dos primeiros trinta minutos olhei pra cima, busquei o feixe de luz do projetor, o segui até a tela como se desse conta da simplicidade daquele processo pela primeira vez. Olhei ao redor, a sala de cinema quase cheia e eu no meio de dois casais, que eventualmente sussurravam piadas e comentários sobre um filme que eles julgavam por dois aspectos que, por excelência, deveriam ser secundários: a palma de ouro em Cannes e as cinco estrelas do jornal. "Como é que pode?! Esse povo ta doido...", disse um deles rindo, provavelmente se referindo ao júri que premiou o filme e ao crítico que pontuou as estrelinhas. Essa revolta, aparentemente ingênua, acabou sendo bastante pertinente pra aquele momento, no meio de um filme que questiona com tanta eficiência nossa crença cinematográfica, e mais que isso, nosso encantamento sobre as imagens, o que enxergamos ou o que inventamos sobre nós em sonhos, na morte, no futuro. Esferas de realidade construídas internamente, antes de tudo, através de cenas, sequências e planos. Tio Boonmee está cercado dessas janelas, se abrindo literalmente como pontes pra ver além (pro além) do nosso conforto cético, condicionado ao ritmo frenético da informação. Não à toa os personagens do filme se deslocam, logo no início, da cidade pra uma fazenda distante, calma e cercada por uma densa floresta que abriga sombras, almas e seres jamais desprendidos de suas responsabilidades e memórias. Guiado por esses princípios o filme potencializa esses lugares da ação, concedendo a geografia do “primitivo” (montanhas, florestas e cavernas) uma consagração espiritual, onde os vínculos e reencontros são concretizados, mais do que nos reconhecidos espaços da fé: “o céu é superestimado, não há nada lá”, diz o fantasma da mulher do personagem, e logo, ao final, o monge troca seu templo sombrio por um quarto de hotel aconchegante, com vida. Assim também os animais carregam uma espiritualidade ciente e poderosa, capaz de estabelecer as mais diversas relações entre os mundos, sendo até mesmo agentes de contato e transformação entre eles. As fábulas contadas dentro filme reforçam tanto o inconformismo com as limitações e imperfeições físicas do mundo material, quanto o fascínio por outro modelo de existência. O macaco fantasma é um ser resultado desse encantamento por uma imagem mítica, onde só uma lente de câmera pôde registrar, lhe levando a ser o que buscava. Em outro momento a princesa se deixa envolver pela divindade que é a natureza graças a insatisfação com seu rosto, se entregando ao diálogo, a cópula com um bagre, elevando seu reflexo não mais do corpo, mas da alma, como era a que o rio lhe apresentava em sua margem no início da sequência. Em ambos os momentos é o questionamento da imagem seguido do ato sexual que definem a experiência da transformação, ou seja, elementos inerentes a nossa natureza. Essa importância animal como recurso mitológico e de contato com o mundo-além acaba espalhada por várias outras sequências através de insetos, vacas e macacos. Uma relação muito mais comum dentro da cultura oriental e africana.

Esses elementos estão alinhados com a busca por uma afirmação e reconciliação dos carmas, vidas passadas, mas com a própria história presente e com as pessoas que lhe deram sentido. O diretor Apichatpong Weerasethakul (tente repetir esse nome três vezes em voz alta) condicionou seu tempo narrativo a esse compromisso com a memória, espaço e eternidade em um tom extremamente consciente de sua projeção criadora de presenças, no fazer (re)enxergar em um mundo que não deixará de nos surpreender justamente pelo que cremos e duvidamos... Esse encontro entre as possibilidades (visível/invisível, carne/alma) na mesa de jantar parece o mais conciso ponto pra essa metáfora da presença, do milagre da luz, estabelecido através das duas cadeiras vazias à espera dos visitantes. Há uma serenidade comovente no personagem-título com seu modo de reagir ao aparecimento do espírito da mulher e do filho metamorfoseado em macaco fantasma. A cena provocou riso em meus companheiros de sessão, mas estávamos (rindo ou não) diante daquilo que se espera do cinema enquanto arma motivadora de encantamento, no sentido mais simples da expressão. Se a câmera trépida e uma lanterna podem nos guiar por uma gruta enquanto ouvimos o sonho do Tio Boonmee à beira morte, é porque nos entregamos a essa a crença de alterar a ordem do bruto do mesmo modo que a princesa ao rio, o tio a caverna, o homem a imagem que fotografou. Por isso que talvez, no início da sessão, quase involuntariamente segui o caminho da linha iluminada até a tela, numa tentativa de duplicar a experiência, enxergando algo mais que três pessoas vendo televisão (lá) e outras dezenas, ao meu redor, vendo um filme qualquer. "Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas" é um cinema ritual, holístico, de eterno retorno.

Luz do sol

Que a folha traga e traduz

Em ver denovo

Em folha, em graça

Em vida, em força, em luz...

C.Veloso