sábado, 16 de maio de 2009

tão, tão...

Paul Klee: "Som Antigo".

a fúria dormiu na rua
comeu um pão velho do lixo
rosnou pro cão sarnento
mijou em cima do cego

a fúria era filha da puta
e da rua,
fudeu com o medo
no beco cheio de rato

O sorriso da criança vai sumindo lento enquanto ela adormece no colo da mãe...

Pois um mundo assim tão, tão ... é o que temos!

(Escrito na porta do banheiro mais próximo...)

domingo, 10 de maio de 2009

chuva nas idéias

Acordar com as primeiras piscadas desajeitadas e sentir o leve ardor dos olhos, se deparar com a janela entreaberta revelando um cenário cinza e chuvoso entre os prédios, é irremediavelmente inspirador pra mim. Há anos uma frase ecoava em minha memória:

"Venha a chuva e caia sobre mim,
Sobre minhas idéias...”

Composta com Leo como canção na varanda de casa, acabou como tantas outras, inacabada, perdida aos acordes do momento. Restou-me esse trecho, e nele me apeguei nesses dias molhados, e resolvi assim liquidar essa dívida com outros versos e melodias. Um ócio criativo regado a café, filme, pernas esticadas no sofá, e todas essas tranqüilas sensações privadas que dias como esses podem trazer... Tudo isso contrastou drasticamente com o quadro agoniante e confuso que se apresentava do lado de fora. Como sempre as imagens nos falam, nos revelam as palafitas que sustentam nossa cidade... Um suspiro de ridículo me subiu por trás da orelha ao notar que meu pretensioso olhar poético se alimentava justamente do que derrubava, paralisava, e transtornava tantos outros. Questionei minhas intenções, o que me instiga a criar. Questionei aquela simples idéia imperativa de que a chuva podia muito pelo contrário nos aliviar dores, securas... Que ela pulsando do céu pudesse lavar e levar gostos amargos que o cotidiano às vezes nos condiciona. Lembrei da "Rosa de Hiroshima" de Vinícios. Há de se ter muita coragem, além de talento, pra falar de tragédias tão absurdas de maneira tão sensível, bonita, agradável, sem perder o tom denunciante da palavra. Lembrei de "Guernica" de Picasso, do "Grande Ditador" de Chaplin, dos poemas de João Cabral. Todos esses clássicos exemplos de fantásticas criações que me certificam que não há maior função de um artista que potencializar a reinvenção de mundos, de se responsabilizar por eles. Lembrei de Paul Klee quando disse que a arte não reproduz o visível, mas que nos faz ver, como Bergman nos revela em "O Sétimo Selo": o artista que enxerga o lirismo em meio à constatação dos nossos maiores medos. Pra mim não existe futuro sem essa ousadia, talento... e coragem!
"Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito"
Paulinho da Viola

quinta-feira, 7 de maio de 2009

e n t r e v i s t a

Divertida a sensação de ser entrevistado. Minhas palavras faladas normalmente tão livres e soltas, agora escritas e organizadas... Mais uma coisa pro meu currículo de vida. Quem quiser conferir aí está o blog da entrevistadora, amiga e historiadora Iara Canuto.

http://todosdizemxis.blogspot.com/

sábado, 2 de maio de 2009

"Deus, Deus"

Ele gritou "Deus" umas duas vezes no quintal... Alguns pássaros passaram como se perdidos por cima,"ali Deus", pensou então... Resolveu seguir a lógica e lançou mais dois chamados, mais agudos, e embolados em gargalhada (chamar Deus já fazia parte então de uma brincadeira que parecia dar certo)... Dessa vez nada aconteceu... Ainda com a cabeça pra cima esperou mais uns segundos até o pescoço cansar, baixou e foi descendo o olhar até encontrar o chão marrom de terra. Ali passavam formigas com o clássico pedaço de folha sobre as costas.Agachou curioso, e elas seguiram direção pros seus pés, como se entendidas da observação, mas logo se afastou ele com pequenos passos limitados pra trás..."Aí ó Deus de novo".
Acompanhou o caminho das pequenas criaturas agora de pé com certo receio. Sim havia mesmo razão sua mãe ao dizer, "chama por Deus minha filha", na sala de sua casa enquanto a moça choramingava... Agora como se quisesse ter certeza do seu poder, foi ao banheiro e disse baixinho entre as mãos, "Deus, Deus". A resposta veio da porta com a mãe questionando aos berros o seu trancafiamento... Ele saiu explicando "estou chamando Deus, achei duas vezes". A mãe arqueou sutilmente suas sobrancelhas, perturbada por dois segundos... Os seguintes foram recheados de outros berros, impulsionando o choro assustado do filho, que tomando a vez agora de arquear a sobrancelha, o bico, foi desengonçado obedecer à ordem materna de sentar no banco virado pra parede. Piscante, cochilou cansado de murmurar, e de susto voltou a si com o som da vassoura no quintal. As lágrimas já secas no rosto lhe vez lembrar da vizinha que chorava ali outro dia na sala. Não entendeu... Se quando choramos mandam chamar por Deus, também quando chamamos, choramos. Claro, não pensou com tamanha destreza, só não entendia... Bom era chamar e ver as coisas vindo, como se pra nos ajudar... Formigas, passarinhos... E cochichou ainda mais baixinho que no banheiro “Deus, Deusinho”, e ali bateu o olho na parede pálida que lhe cercava a visão...
E lá estava ela, vindo em sua direção.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

3 imagens


coité, ausências, orquestra...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Idéias Baiantificantes - Carmen


Espero na fila, o cheiro é forte, as glândulas salivares produzem enquanto imagino as primeiras mordidas na iguaria de feijão banhada em dendê... Enquanto isso eu ia observando a baiana, viajando naqueles signos, o acarajé crocante sendo cortado, o gringo vermelho se ardendo com a pimenta... Num lapso de pensamento quase trivial percebi algo incrível: “Eu sou baiano... Rapaz eu sou baiano... Que onda...”. Era eu ali um simples baiano babando de vontade por um acarajé! O que mais? O que mais me fazia pertencer a essa complexa terra? Quais são meus adereços Caymmi?
Nessa crise identitária fui obrigado a lembrar de personagens que me ajudassem a entender minha baianidade, ou a falta dela. ACM, Ladeira da montanha, BaVi, Axé Ylê Oia , Castro Alves, o busú caro... Não, nenhum desses patrimônios parecia forte o suficiente para o início dessa análise... Chegou minha vez, peguei o acarajé, “no pratinho é mais caro senhor”, disse aquela mulher vestida de branco com sorriso negro, que me lembrou quase instantaneamente uma outra baiana, muito particular. Miranda, Carmen Miranda. Num primeiro momento fiquei surpreso com aquele nome emanando e piscando em minha cabeça. Ela pra mim sempre foi lembrada como um fantasma que assolava tais idéias baiantificantes. Um personagem aberrante que vendia uma idéia de Brasil, da Bahia pra Hollywood, e que assim só atrapalharia esse debate. Mas não me conformei, havia algo naquela figura branca, portuguesa, que não sabia sambar, mas que carregava esse enorme poder referencial. Afinal olhar pra baiana de 2009 no Rio Vermelho e lembrar dela é realmente intrigante.
A imagem da moça de boca e olhos saltitantes e com frutas na cabeça nos é tão óbvia e familiar, ao mesmo tempo tão cercada de estigmas que me impedia de ir além desses balangandãs preconceituosos. Engraçado como todo mundo acha a Piaf linda, sua vida e voz, mas ninguém concede esse olhar cuidadoso pro nosso quintal. Percebi que não havia melhor caminho pra entender essa tal identidade se não a partir da desmistificação dos mais clássicos e contraditórios expoentes.
Reinventar e personificar o mundo aos seus olhos é o que dá a cada artista sua graça, e foi essa audaciosa coragem artística que Carmen, com a ajuda de Caymmi, conseguiu construir, mitificando uma personagem real do cotidiano da cidade, sem se preocupar com uma fidelidade didática da realidade. Quando vi o documentário de Helena Solberg, “Banana is my business” percebi elementos riquíssimos que cercavam a trajetória da tal mulher das bananas, sua incrível e malemolente performance. O lendário “jeitinho brasileiro” estava ali encaixotado, exportado, exótico do jeito que os gringos gostavam e gostam. Mas nesse processo de descoberta da notável pequena percebi o quanto aquela imagem caricatural, antes característica do personagem de Carmen, tornou-se um modelo que Hollywood ajudou a promover, e principalmente engessar.
Enquanto simples baiano, e claro um pouco preguiçoso, engoli essa idéia de que aquela tal Carmen Miranda era vazia de maiores significados, como se apenas a análise da realidade crua pudesse dar conta do nosso Ser Baiano e Brasileiro. Claro que não tenho a pretensão em definir essa equação, mas todos esses meus devaneios de alguma maneira me ajudam em minha procura por raízes referenciais enquanto sujeito que aprecia acarajé, mas que também gosta de Rock Inglês, ao mesmo tempo que não sabe quem está na frente do campeonato baiano, mas que vive tanta coisa bonita que há por aqui, mesmo com tantos problemas...
Sou, somos! Que onda Carmen...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

EXTERIOR

Por que a poesia tem que se confinar

às paredes de dentro da vulva do poema?

Por que proibir à poesia

estourar os limites do grelo

da greta

da gruta

e se espraiar em pleno grude

além da grade

do sol nascido quadrado?



Por que a poesia tem que se sustentar

de pé, cartesiana milícia enfileirada,

obediente filha da pauta?



Por que a poesia não pode ficar de quatro

e se agachar e se esgueirar

para gozar

-CARPE DIEM!-

fora da zona da página?



Por que a poesia de rabo preso

sem poder se operar

e, operada,

polimórfica e perversa,

não poder travestir-se

com os clitóris e os balangandãs da lira?


por: Waly Salomão