No céu do primeiro dia no ano as espessas nuvens tinham formatos de enormes caravelas, se moviam lentamente em nossa direção como se empurradas pela insistência habitual dos raios solares. Aquela luz, aparentemente impreganada de sentidos especiais, iluminou a areia da praia, revelando distintamente os corpos de casais dormentes dos que queriam presenciar mais intensamente a sensação do novo, completando assim, quem sabe, ainda mais esse sentido, iniciado pelos fogos de artifício queimados à meia noite. No chão, enquanto as sombras eram cada vez mais escurecidas pelo amanhecer, alguns empolgados se largavam nas ondas fortes do mar, enquanto outros levantavam tortos e ressaqueados, apertando os olhos, bocejando forte... De repente, não muito longe, gritos e xingamentos eram cuspidos entre familiares, brigando por alguma qualquer razão desconhecida, chamando a atenção dos mais próximos. A beleza do crepúsculo se dissipava, dando ao desenrolar do dia um peso estranho. Na rua um homem arrasta suas malas embriagadamente enquanto uma mulher lhe persegue, suplicante. O branco da areia carregado de um colorido sujo pelas embalagens plásticas e garrafas esverdeadas de espumante vazias, parecia ajudar a enxergar a contraditória lógica na qual a maioria das pessoas está inserida, seja no velho, seja no novo. Pescando do céu as luzes que possam representar as possibilidades e desejos das coisas boas e felizes, praticam no chão um mesmo e velho caos de sempre, capaz de superar tranquilamente os abraços, sorrisos, saudações e promessas que marcam pontualmente o fim e o início de cada ano. Pela tarde a música das caixas de som se auto impludiam alucinadamente, misturadas as tumultuadas tentativas das pessoas se moverem, colidindo-se, disputando seus pesos e medidas, tentando voltar pra casa em ônibus, carros e motos. Eram hordas enfurecidas que pareciam nem sequer imaginar qual razão que comemoravam aquilo. O primeiro dia do ano lhes serve muito bem como possibilidade de vislumbrar e ensaiar algo novo, mas que nunca é realmente concebido... Talvez seja esse desejo frustrado, malogrando em promessas, que acabe por empurrar os sujeitos pra um modo mais caótico de se fazer, sentir e falar. Eis que revelamos aí, de modo apoteótico, o quanto festejamos nossa incapacidade e mesmice saturada de cada resto de ano.
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Ao que parece, quanto mais nos aproximamos das transformações internas, experiências deslocadoras e intensamente sinceras, cativantes, mais toda essa majoritária e agoniante realidade salta aos olhos, choca, atordoa, ao mesmo tempo que clama também por alguma interferência reagente. Conviver com essa responsabilidade é mover, propagar e integrar as idéias aparentemente mais absurdas, impossíveis.
"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". Las palabras andantes - Página 310, Eduardo Galeano