segunda-feira, 30 de junho de 2008

Eis o estado que vos falo, como se já viesse discorrendo antes disto escrever, cinicamente depreciado, tanto apavorante, espantoso. Desde o princípio, o bicho homem, crente em sua soberania existencial, mostrou-se flexível aos obstáculos da natureza. Pois assim, tão aparentemente intenso e potente, viveu com toda eficácia até os dias de outrora. Porém tão frágil e débil assim também sempre fora, e nunca bastou um caso, pequeno que fosse, para lhe pôr em desequilíbrio. Ora, por ser um bicho tão inteligente, abotoado ao raciocínio, devia ter a obrigação de esperar o que o destino já estava a trazer. Caso tal que não chegou como uma tempestade, determinada em consumir toda sua energia em um só tempo, mas sim ocorrendo aos poucos. Daí o bicho homem, em toda sua astúcia, instituiu apegos miraculosos e simples para que se sentisse protegido de qualquer desgraça. Permita-me falar, sem rodeios, no que veio a calhar: tais apegos se constituíram, pouco a pouco, em próprios infortúnios.

Pois o homem, tão adequadamente fiel à sua religião, ao seu Deus todo protetor, amigo misericordioso, erudito, amável criatura divina dos céus impossíveis, foi se perdendo gradamente até os dias a que quero chegar.

Não se sabe como começou, mas alguns bichos, ao analisarem os seus dias, talvez com uma criticidade um tanto decadente, ou quem sabe correta (não há o que duvidar nos tempos atuais), começaram a pregar uma greve. Porém, não era esta uma tão comum agitação trabalhista, em busca de melhores condições no emprego; nem havia de ser algo parecido. No começo, tudo fora visto com os olhos do absurdo. Mas, o bicho homem já estava numa situação tão precária e urgente, conseqüência do seu desrespeito com o ambiente que se relacionava, que aos poucos foi se acostumando com a desvairada idéia. No intuito de uma auto proteção, ou talvez numa insuficiência de se encontrar um culpado específico, o homem entrou em greve de vida. A todo tempo gritava aos céus por uma melhora na qualidade da existência, numa esperança incoerente de que Deus, ou algum anjo, estava a ouvir e assim fizesse, como numa negociação entre empresário e operário. A situação que o homem deixou chegar ao mundo era tamanha horrenda, que poucos ateus restaram, e estes próprios foram se deixando levar aos poucos pelo desespero. Começou com um corte na higiene: era proibido o uso de água para se banhar. Assim durou por meses. Os homens, ao verem a indiferença do Empresário Divino, resolveram, então, por consenso, proibir o uso da alimentação como fonte de vida. E foram vivendo de água até vedarem o seu uso também. É claro que muitos faleceram logo e se foram. E era esta a estratégia. Achavam que a morte geral iria pôr a população em extinção, e assim o Empresário Divino iria então ceder aos pedidos de “mais igualdade, menos desgraças, mais felicidade, menos pobreza, mais honestidade, menos poluição, mais paz, menos violência, melhoria na educação, o fim da corrupção e do vício...” Eram tantos os pedidos, que é óbvio imaginar a variedade. Acontecia de uns, como sempre egoístas, extrapolarem nas exigências de negociação. Ouvia-se desses: “casa melhor; aumento do salário; colchão mais macio; aprender a nadar; o fim do ronco; gripes mais fracas, estabelecendo um novo limite máximo para as febres, que só iriam até os trinta e oito graus; fim da miopia...” Passando-se os meses, alguns decididos já se suicidavam na certeza da morte próxima. Outros resistiam, suportados somente pela esperança de seus pedidos serem aceitos. Foi um momento raro em que todos os bichos homens estavam reunidos por um único ideal. Não durou muito até que a raça humana estivesse em aniquilamento, e logo depois extinta.

Não sobrara ninguém. A não ser pelos bichos animais, que passaram durante este tempo na mesma simplicidade de enfrentar a vida.

Aí, então, todas as exigências finalmente foram cumpridas: sem violência, mais paz, o fim da corrupção, do vício, das desgraças... Lamentavelmente não havia restado um humano para perceber que o Empresário Divino sempre fora justo e não os havia decepcionado: demorado de ceder aos pedidos, porém assim tinha feito. Talvez um pouco tarde demais... Antes tarde do que nunca!


por:gigito.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

"Parto. Perdido. Partido.
Vago. Não penso. Divago.
Falta. Pedaço. Quem?
Raro. Macio. Quase-alegria.

Saudade das coisas que talvez nunca teve, talvez não tenha vivido, talvez não tenham existido.
Falta das pessoas que talvez nunca teve, talvez fosse sonho, talvez não existam mais.
Sumiram as peças do quebra-cabeças de poucas peças.
Parece que é preciso aprender a brincar com o jogo de uma peça só. Uma só peça. Sem cor.
Um brinde aos clichês, à angústia incontida, às três da manhã. "


por:leo

domingo, 1 de junho de 2008

J
oão
morreu ontem à noite. Ninguém se importou. Seu filho mais velho estava
num bar, seu filho do meio namorava e o mais novo dormia. Sua mulher estava na casa da amiga vizinha assistindo a novela das oito. Também tinha ouvido os gritos, mas tinha que ver o fim do capítulo.


por:gigito

terça-feira, 20 de maio de 2008

um estar-bem do caralho!!

Foi durante um por do sol em frente ao mar que ele pensava nela, era um clichê cercado por um momento propício em que à brisa bagunçava seu cabelo sem lhe incomodar, enquanto as cores do dia se misturavam com a noite num processo bem lento, leve... E esse “pensar” não se tratava desse “pensar” habitual, gasto, corriqueiro, como: “tenho que arrumar meu quarto hoje”, não, era um pensar reflexivo, que fazia jus a Platão, as poesias de Neruda, as obras de Rodin, enfim, era um “pensar” intenso, quase pedante, artístico! Pra isso havia por trás aquela mulher, uma longa história a dois, risadas, brigas absurdas, noites sem fim, poesias toscas, enfim tudo isso que parece tornar duas pessoas apaixonantemente inseparáveis. Ele chegou numa simples conclusão: queria fazer o melhor pra ela, é meio óbvia, no entanto, as vezes as coisas se complicavam ao ponto em que essa simples vontade parecesse distante, mesmo ele sabendo que no fundo, toda complicação tinha essa intenção de servir para um bem maior, o que nem sempre ocorria. Ele sabia há tempos o quanto esse bem era recíproco: seja pra dividir um nescau com biscoito de madrugada, seja pra fazer uma massagem mal feita ou pra rir de coisas que só eles achavam graça...

Naquela tarde bonita ele só tinha certeza que queria estar perto dela, e ter a pretensão de torná-la melhor com tudo, como ele se sentia, e quem sabe assim o mundo pudesse segui-los... E mesmo se talvez seus garfos um dia, não se agrupassem no mesmo prato, que a proximidade estivesse em lembrar do passado com um sorriso largo no rosto, junto com uma vontade que o outro, mesmo distante, estivesse realmente bem, não um “bem” que responde ao conhecido “como você está?”... Era um “estar-bem” do caralho que ele desejava!

Isso era o que pensava, o que queria, o que lhe inspirava.

por:ramon.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

a canção, o poema, a risada...


Casas simples, bonitas montanhas,
entre elas um bêbado tropeça nos
tijolos enquanto canta, e canta...
A cena engraçada faz rir os que
passam, e do outro lado da rua,
surge uma frase pra completar a
cena...
o velho senhor recita de
sua varanda rosa e tal frase se
mistura com o aquele canto embriagado...
Não se pode enxergar os rostos
dos personagens, apenas a canção,
o poema, a risada...

por:ramon.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Cão sem dono


"Um embrião cansado invade a escuridão da caverna procurando uma saída...
escuto o eco rebatido nas paredes da carne,
refletindo no olho

O desespero da solidão

A preguiça é o sono dos mortos

Minha euforia necessita de calma,

e minha calma, de euforia
Que se foda o resto do resto
da sobra do que resta
O restante é o que eu quero
O amor do instante é o instante
em que estamos perto da batida perfeita
Os olhos são o início do real

Meu cigarro tem um tempo de vida
Minha vida necessita de um cigarro

O que fazer? O que comer?
Será que minha mão ta certa?

Definitivamente não

Preciso de uma coração que bata descompassado

sem ritmo, sem melodia

Não quero a batida perfeita
quero o descompasso
Me dê uma pista, uma lágrima,
mas me dê algo."

Ciro, "Cão sem dono" -
Beto Brant e Renato Ciasca (2007)

terça-feira, 29 de abril de 2008