terça-feira, 9 de março de 2010
pessoas, passos, lugares
Abraços partidos, nós na garganta, partida, nós aqui tu allá;
a estrada em pedaços, a estória na sola dos sapatos;
pessoas em nó, a dor na barriga, a américa em retalhos.
passos, pessoas, lugares. trapos, paisagens, olhares. (leo coutinho)
segunda-feira, 1 de março de 2010
O lugar constante de deslocamento
Uma parte do sol atravessou as pálpebras. Era quase meio dia e as curvas da estrada também interromperam o sono. Os joelhos de tão dobrados latejavam esperando uma nova posição, que já há horas era a mesma. As duas poltronas eram como um ninho que acolhia o corpo, o livro, caderno, caneta e câmera. Ao lado a pequena janela dividida entre a neutralidade vermelha da cortina e a vastidão da paisagem bucólica parecia remeter diretamente a uma outra partilha. Os sonhos vividos no instante anterior e a volta repentina pra realidade confundiram o rosto amassado. Reestabelecer contato... É essa a tarefa mais exigida diante de um anti-cotidiano. Tudo de novo diferente amanhã. Lidar com tanto é o maior dos exercícios, mesmo em uma posição inerte, calada, demasiadamente sóbria. Por um momento tudo passa de vez na cabeça, como o lá fora distorcido da janela. A caneta não estava fácil, mas foi buscada com insistência debaixo do banco. Era preciso riscar algo pra colocar de volta algum tipo de ordem em tudo aquilo. Não estava ficando bom, mas lá estava aquele livro pra salvar o momento raro de busca por organização interna. Algumas páginas viradas depois alguém por perto puxa um papo interessante, intorrompido apenas pelas fotos tiradas da montanha adiante. Música pra levitar para além do tempo/espaço, mas logo depois de oito faixas as pilhas descarregadas impedem maiores transcêndencias. De volta pra uma pessoa, conversa, risada. Quantas horas faltam pra chegar? O olhar se volta pra janela agora escura pela noite, que de tão vazia ajuda a deslocar o pensamento pra outra imagem: um chuveiro amaciando e aliviando o juízo. Todos no ônibus dormem, todos parecem sonhar com o mesmo chuveiro, cama, alívio. A luz acende repentina. Reestabelecimento da órbita pra reconhecer a bonita estranheza de mais um lugar. Parindo mais outro olhar no meio da rua da cidade. Chegando ao mesmo espaço do constante deslocamento. Amanheceu e eu não estou mais aqui...
Integração Venezuela
Dançar é bom... Dançar no meio da rua de Caracas é melhor ainda.
Por uma ampla integração de ares, corpos, idades, sentidos e risadas!
Por uma ampla integração de ares, corpos, idades, sentidos e risadas!
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
absorvido
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
eu, outro, você
Num primeiro momento era através do rosto das pessoas que eu tentava entender o cotidiano de cada cidade, posto de gasolina e vilarejo que cruzava. Um homem de meia idade lendo um jornal no metrô de Santiago; uma boliviana mascando a folha de coca em uma estrada na Bolívia; a menina que dançava sorridente nas ruas de Puno. Analisar a disposição do olhar de cada um parecia o melhor meio pra tentar entender o normal de cada lugar, talvez como um modo ilusório de me sentir parte, imperceptível. Não, ser percebido como o-outro sempre parecia maior. Meu desencaixe estava justamente nesse meu olhar interessado, quase antropológico, como se quisesse colher tudo que se podia de cada contexto.
Perguntei ao homem ao meu lado no carro: "Como é ser taxista em Lima?", ele me olhou de lado, com uma expressão surpresa e positiva. Provavelmente ninguém havia lhe perguntado aquilo... Não tardou a me devolver também um questionamento. Senti a dificuldade e o prazer em responder sobre mim, sobre meu lugar.
Não há como se apropriar das outras realidades sem despertar uma possibilidade mútua de interesse. Eu, ali como um outro mais plural, me aproximando levemente sobre um emaranhado de possibilidades e trocas. Um homem de meia idade lendo jornal, uma boliviana mascando folha, a menina dançando, o taxista falando. Quis ser por um minuto aquelas vidas... Expandir-me impossivelmente sobre seus espaços... Sair de si esquecido e ser dominado por outras lógicas, outras crises e certezas.
Em um movimento contrário e drástico de pensamento voltei pro meu quarto (tão distante), como se aquele delírio tivesse também o momento certo pra demarcar seus limites. É esse ir e vir que me cerca agora, congestiona algumas idéias, liberta outras, responde, cria novas perguntas - como as de Dante, o taxista. Como se integrar subjetivamente aos infinitos caminhos que exigem a nossa presença? Como podemos nos conhecer?
Pra que rostos você irá olhar amanhã? Que lugar buscará ir?
Que perguntas te farão?
Perguntei ao homem ao meu lado no carro: "Como é ser taxista em Lima?", ele me olhou de lado, com uma expressão surpresa e positiva. Provavelmente ninguém havia lhe perguntado aquilo... Não tardou a me devolver também um questionamento. Senti a dificuldade e o prazer em responder sobre mim, sobre meu lugar.
Não há como se apropriar das outras realidades sem despertar uma possibilidade mútua de interesse. Eu, ali como um outro mais plural, me aproximando levemente sobre um emaranhado de possibilidades e trocas. Um homem de meia idade lendo jornal, uma boliviana mascando folha, a menina dançando, o taxista falando. Quis ser por um minuto aquelas vidas... Expandir-me impossivelmente sobre seus espaços... Sair de si esquecido e ser dominado por outras lógicas, outras crises e certezas.
Em um movimento contrário e drástico de pensamento voltei pro meu quarto (tão distante), como se aquele delírio tivesse também o momento certo pra demarcar seus limites. É esse ir e vir que me cerca agora, congestiona algumas idéias, liberta outras, responde, cria novas perguntas - como as de Dante, o taxista. Como se integrar subjetivamente aos infinitos caminhos que exigem a nossa presença? Como podemos nos conhecer?
Pra que rostos você irá olhar amanhã? Que lugar buscará ir?
Que perguntas te farão?
domingo, 7 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
um deserto cama
era preciso empurrar no ar
soltar alguma coisa de qualquer maneira
romper as curvas,
a borracha, engrenagens,
lama
é... mover-se requer um certo desleixo
larga-se exige uma série de pequenas paralisias
determinados compassos,
desapegos de uma única via
mover mais, sim
mais que os pés, as rodas, o olhar
em um único movimento
criar queda...
e lá se vai indo,
acaso,pedra
até-a-cama o deserto se multiplicou
largo em seus horizontes febris
hipnotizando em suas mínimas travessias
é... constantemente voltaremos a ele,
pra depois de novo fugir
tornado cárcere o ato de se fazer mover
.
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