"O artista existe porque o mundo não é perfeito" - Tarkovsky
Num determinado momento de O ANTICRISTO os pensamentos se perdem, as idéias e interpretações viram alpiste, a capacidade de definição não faz sentido… Somos tomados de forma tão pungente pelas imagens que a poltrona parece se contorcer junto com o corpo. Lars Von Trier parece ter tanto a mostrar que não deixa muito espaço durante o filme pra nossas próprias reflexões, ou pelo menos pra sua organização. As imagens por si só parecem silenciar o texto. A plasticidade suavizante das primeiras cenas já nos apresenta um universo regido pela crença absoluta na imagem. A ópera de Händel, o preto e o branco, a hiper-lentidão da penetração, da colisão entre os corpos, da queda da criança, guardam uma beleza trágica e perversa que não nos poupará do choque... E não há outro meio pra chegar ao que o diretor /autor quer nos dizer, pra tentar entendê-lo há de se ter muita responsabilidade e espírito livre.
A impressa cinematográfica gasta centenas linhas pra falar da polêmica estréia do filme no Festival de Cannes, sobre a depressão do diretor, das chocantes cenas, etc. Na análise de qualquer filme de Lars Von Trier todas essas reverberações devem ser levadas em conta, o problema é quando essas acabam sendo mais discutidas que o próprio filme. Claro, a polêmica toda sempre vende mais, e ele próprio tem parte de culpa nisso. Acho que é dessa superficialidade, e da impressionante necessidade de discutir e mastigar cada cena, que meus dedos coçaram compulsivamente pra escrever. Saí da sessão embasbacado, desnorteado, torcendo e esperando os pensamentos educadamente se recomporem.
O Anticristo é o mais pretensioso de seus filmes. O diretor parece querer fazer do seu cinema mais que cinema, mas também cura de suas próprias dores e questionamentos. Será que o artísta precisa experimentar de uma dor incalculável pra depois expulsá-la com Arte?! Muitos exemplos provam que sim, e Lars nos mostra seus próprios pesadelos na tentativa de descortinar as dores e culpa de toda humanidade. Esquizofrênica tentativa! (O que seria de nós sem elas?!)
Sua tese aqui é sobre a existência, sobre a representação que fizemos do Bem e do Mal pra julgar e edificar nosso mundo. Ondas do destino, Dançando no escuro, Dogville já contemplavam com a mesma visceralidade esses aspectos, mas o exorcismo do diretor aqui parece ainda mais desesperado e urgente. Pra isso ele se apropria e subverte o próprio emperrado gênero de Terror (o título já é uma clássica referência do estilo, que claro guarda significados muito maiores).
A densidade sufocante do filme potencializa o maior dos enfrentamentos: Ela e Ele no Éden pra um histórico e doloroso acerto de contas! Se a Bíblia nos conta a historinha da criação do mundo, Von Trier irá desconstruí-la pra provar o quanto somos contra a idéia de perfeição... O Homem é incompatível com a Natureza justamente por não aceitar seu grandioso poder. Tudo diferente do Cristo foi demonizado e subjugado: o corpo, a mulher, a natureza, os índios... E por aí vai, uma longa lista de cristianizados na base do fogo. O Cristo que é homem que é a civilização contra a Natureza que é Mulher, e por isso Igreja do Demônio. O "caos'' dessa Natureza é tudo de que o homem sempre buscou fugir, desorganizando o orgânico pra estruturar a ilusão de um mundo superior, ''limpo''... Mas a raposa avisa que "o caos reina'', porque a Natureza é maior, e é aí que está todo nosso desespero. Sufocar, queimar, estuprar, escravizar não poderá conter sua impiedosa resposta final.
Se o sexo é o único elo entre esses mundos, e da procriação trágica da humanidade, ELA abortará tais possibilidades ejaculando sangue, cortando o clitóris, permitindo a queda do filho. Ela é a catalisação de Grace, Bess, Selma dos outros filmes de Von Trier, o que faz da melhor parte da sua filmografia um só grito. E desse agudo som todas essas Evas lentamente virão morro acima nos colocar junto da mesma absurda e desordenada fogueira, que de tão alta pode atingir a essência daquilo que misteriosamente somos feitos, mas que nunca realmente queremos enxergar.
Em O Anticristo Nietzsche diz: "É um doloroso, um arrepiante espetáculo que despontou para mim: abri a cortina da corrupção do homem." E ainda... "É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela". Interessante coincidência? Nada parece gratuito nesse filme. Assim como a justíssima dedicatória final ao mestre Tarkovsky. Através dessas referências podemos imaginar a abrangência simbólica e física dessa obra, que continuará maldita, Antiparalisia, Antidepressiva, amaldiçoada pela capacidade de perturbar nosso letárgico sono, elevando nossa natureza para muito além dessa covardia que nos ensinaram por tanto tempo.
ps: todas as divagações e delírios desse humilde texto são de inteira responsabilidade da chuva torrencial que cai aqui fora, mas que invadiu também minhas reflexões... A natureza é mesmo demoníaca!
Num determinado momento de O ANTICRISTO os pensamentos se perdem, as idéias e interpretações viram alpiste, a capacidade de definição não faz sentido… Somos tomados de forma tão pungente pelas imagens que a poltrona parece se contorcer junto com o corpo. Lars Von Trier parece ter tanto a mostrar que não deixa muito espaço durante o filme pra nossas próprias reflexões, ou pelo menos pra sua organização. As imagens por si só parecem silenciar o texto. A plasticidade suavizante das primeiras cenas já nos apresenta um universo regido pela crença absoluta na imagem. A ópera de Händel, o preto e o branco, a hiper-lentidão da penetração, da colisão entre os corpos, da queda da criança, guardam uma beleza trágica e perversa que não nos poupará do choque... E não há outro meio pra chegar ao que o diretor /autor quer nos dizer, pra tentar entendê-lo há de se ter muita responsabilidade e espírito livre.
A impressa cinematográfica gasta centenas linhas pra falar da polêmica estréia do filme no Festival de Cannes, sobre a depressão do diretor, das chocantes cenas, etc. Na análise de qualquer filme de Lars Von Trier todas essas reverberações devem ser levadas em conta, o problema é quando essas acabam sendo mais discutidas que o próprio filme. Claro, a polêmica toda sempre vende mais, e ele próprio tem parte de culpa nisso. Acho que é dessa superficialidade, e da impressionante necessidade de discutir e mastigar cada cena, que meus dedos coçaram compulsivamente pra escrever. Saí da sessão embasbacado, desnorteado, torcendo e esperando os pensamentos educadamente se recomporem.
O Anticristo é o mais pretensioso de seus filmes. O diretor parece querer fazer do seu cinema mais que cinema, mas também cura de suas próprias dores e questionamentos. Será que o artísta precisa experimentar de uma dor incalculável pra depois expulsá-la com Arte?! Muitos exemplos provam que sim, e Lars nos mostra seus próprios pesadelos na tentativa de descortinar as dores e culpa de toda humanidade. Esquizofrênica tentativa! (O que seria de nós sem elas?!)
Sua tese aqui é sobre a existência, sobre a representação que fizemos do Bem e do Mal pra julgar e edificar nosso mundo. Ondas do destino, Dançando no escuro, Dogville já contemplavam com a mesma visceralidade esses aspectos, mas o exorcismo do diretor aqui parece ainda mais desesperado e urgente. Pra isso ele se apropria e subverte o próprio emperrado gênero de Terror (o título já é uma clássica referência do estilo, que claro guarda significados muito maiores).
A densidade sufocante do filme potencializa o maior dos enfrentamentos: Ela e Ele no Éden pra um histórico e doloroso acerto de contas! Se a Bíblia nos conta a historinha da criação do mundo, Von Trier irá desconstruí-la pra provar o quanto somos contra a idéia de perfeição... O Homem é incompatível com a Natureza justamente por não aceitar seu grandioso poder. Tudo diferente do Cristo foi demonizado e subjugado: o corpo, a mulher, a natureza, os índios... E por aí vai, uma longa lista de cristianizados na base do fogo. O Cristo que é homem que é a civilização contra a Natureza que é Mulher, e por isso Igreja do Demônio. O "caos'' dessa Natureza é tudo de que o homem sempre buscou fugir, desorganizando o orgânico pra estruturar a ilusão de um mundo superior, ''limpo''... Mas a raposa avisa que "o caos reina'', porque a Natureza é maior, e é aí que está todo nosso desespero. Sufocar, queimar, estuprar, escravizar não poderá conter sua impiedosa resposta final.
Se o sexo é o único elo entre esses mundos, e da procriação trágica da humanidade, ELA abortará tais possibilidades ejaculando sangue, cortando o clitóris, permitindo a queda do filho. Ela é a catalisação de Grace, Bess, Selma dos outros filmes de Von Trier, o que faz da melhor parte da sua filmografia um só grito. E desse agudo som todas essas Evas lentamente virão morro acima nos colocar junto da mesma absurda e desordenada fogueira, que de tão alta pode atingir a essência daquilo que misteriosamente somos feitos, mas que nunca realmente queremos enxergar.
Em O Anticristo Nietzsche diz: "É um doloroso, um arrepiante espetáculo que despontou para mim: abri a cortina da corrupção do homem." E ainda... "É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela". Interessante coincidência? Nada parece gratuito nesse filme. Assim como a justíssima dedicatória final ao mestre Tarkovsky. Através dessas referências podemos imaginar a abrangência simbólica e física dessa obra, que continuará maldita, Antiparalisia, Antidepressiva, amaldiçoada pela capacidade de perturbar nosso letárgico sono, elevando nossa natureza para muito além dessa covardia que nos ensinaram por tanto tempo.
ps: todas as divagações e delírios desse humilde texto são de inteira responsabilidade da chuva torrencial que cai aqui fora, mas que invadiu também minhas reflexões... A natureza é mesmo demoníaca!
por: ramon m. coutinho

